Os novos produtos de tabaco podem fazer-nos pensar que “se é diferente, talvez seja mais seguro”. É verdade que estes produtos têm um impacto diferente no organismo, mas a ideia de que, de alguma forma, são melhores é perigosa.
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Em Portugal, as últimas estatísticas em relação ao tabaco dizem-nos que perto de 20% da população acima dos 15 anos fuma. Para além disto, sabemos que uma parte importante das mortes anuais se associam ao consumo de tabaco. E isto não é novidade para mim, nem para sim, nem para ninguém. Todos sabemos dos riscos do tabaco, das doenças que causa e de como é tão difícil deixar de fumar.
E é provavelmente por sabermos tudo isto que a indústria do tabaco percebeu que tinha de fazer alguma coisa. Passámos do cigarro “clássico” para vários gadgets que se parecem muito pouco com um cigarro de antigamente. Temos vapes, tabaco aquecido tipo IQOS, pods e até saquetas de nicotina. E isto tem um propósito: faz-nos pensar que, “se é diferente, talvez seja mais seguro”. Não têm tanto fumo, não têm tanto cheiro e, por isso facilmente temos esta sensação de que são, de alguma forma, uma alternativa melhor.
E não posso mentir: são diferentes e têm um impacto diferente no nosso organismo. Mas a ideia de que, de alguma forma, são melhores é perigosa. Porque diferente não quer dizer seguro. Estes produtos continuam a aumentar o risco de cancro, de dependência e de doenças respiratórias. Para além disso, é comum que quem não fumava em casa ou no carro comece a faze-lo, e que quem estava a pensar em deixar de fumar deixe de o fazer.
Há essencialmente duas alternativas que vejo serem muito consumidas. A primeira é o tabaco aquecido, em que existe tabaco verdadeiro, mas, em vez de queimar, o dispositivo aquece e a pessoa inala um aerossol que contém nicotina e outras substâncias. A indústria diz que há “menos químicos”, mas isso não significa “menos doença”, e a evidência independente não mostra que seja seguro ou que ajude a deixar de fumar. Pelo contrário: há compostos tóxicos semelhantes aos do cigarro e alguns podem existir em quantidades iguais ou até maiores, além de outras substâncias que não aparecem no cigarro convencional. Os efeitos a longo prazo ainda não são totalmente conhecidos, mas já há sinais de efeitos de curto prazo e preocupação com impacto no coração e nos pulmões.
Já o vape é um dispositivo que aquece um líquido para criar um aerossol inalável, simulando o cigarro. Muitos têm sabores doces ou frutados e, por não parecer propriamente um cigarro, tornam-se uma forma comum de adolescentes começarem a fumar, com todos os riscos que isso implica. Mas não é “só vapor”: muitos dispositivos libertam doses altas de nicotina e aumentam muito o risco de dependência. E há sinais de que começar pelo vaping pode facilitar a passagem para cigarros em algumas pessoas. Para além da dependência, o vaping tem sido associado a vários sintomas respiratórios e a outras doenças importantes.
E sinto sempre que tenho um trabalho ingrato, porque o que lhe estou a “vender” é nada. Na verdade é saúde, mas a saúde é difícil de ver e valorizar quando a temos. De qualquer forma, vou tentar e relembrar que a mensagem mais importante continua a ser esta: fumar é, de longe, o maior fator de risco para cancro do pulmão, seja de que forma for. Para além disso, aumenta muito o risco de enfarte e AVC, doenças pulmonares, infeções, rugas e envelhecimento da pele, alterações dos dentes e gengivas e — ao contrário do que muita gente pensa — também agrava a ansiedade. Quanto mais tempo e maior a “dose”, maior o risco.
A boa notícia é que parar de fumar compensa sempre, em qualquer idade. O risco começa a descer nos primeiros anos e vai melhorando com o tempo. Por isso mesmo que fume há vários anos, vale a pena parar. E, para isso, na maioria das vezes, mais do que trocar um cigarro por um gadget alternativo, interessa pedir ajuda. A evidência mostra que o apoio comportamental e a medicação, quando indicada, aumentam muito as taxas de sucesso. Por isso, se quer parar, fale com um profissional de saúde. Faça um plano realista, convença amigos a deixar de fumar consigo e saiba que está perfeitamente a tempo de reduzir e reverter o risco.
