Uma das porta-vozes do Vida Justa, que trabalha em contacto próximo com coletivos em dezenas de bairros da Grande Lisboa, Luísa Semedo, sai do trabalho na autarquia de Setúbal para se encontrar com a Lusa em Corroios.
Conduz-nos até Santa Marta, bairro autoconstruído no concelho do Seixal, em terreno arenoso e frio, onde crianças brincam na lama deixada pelas recentes tempestades e o lixo se acumula à espera de recolha autárquica.
Luísa, ou Lua, como também lhe chamam, quer mostrar no terreno como funciona o Vida Justa e recorre a Maria Teresa Fernandes, mais conhecida como Teté, que, com outras pessoas, ali ergueu uma comissão de moradores.
Há poucos dias operada aos olhos e com incapacidade por invalidez, a moradora acaba de chegar da casa de uma vizinha, onde se foi “banhar”. Só volta à sua habitação, sem cozinha nem casa de banho, onde vive há mais de dois anos, para dormir, enquanto aguarda na lista de espera para uma habitação municipal.
No ano passado, com a ajuda do Vida Justa conseguiram evitar mais demolições em Santa Marta, conta. E, a pedido da autarquia do Seixal, fizeram “um levantamento do setor H”, o mais recente, onde Teté contabilizou 27 famílias – mas nem arrisca uma estimativa de gente que inclua todos os outros sete setores (do A ao G).
As casas passaram a estar numeradas, mas outras, novas, continuam a aparecer, num bairro onde faltam água, luz e limpeza: “Não há casas para as pessoas habitarem, obrigatoriamente as pessoas têm que viver na barraca, é a única forma de sobreviver neste momento em Portugal.”
Um dos pilares do movimento é a organização dos moradores, assinala Luísa Semedo, em entrevista à Lusa já a partir da Quinta da Princesa, bairro originalmente social onde vive, a distância curta, no mesmo concelho.
“[O foco] é a organização e o poder dos moradores. (…) Lutamos no sentido de criar núcleos locais, [para] que possa ser mais fácil (…) chegar à população mais vulnerável e àquela que realmente precisa”, detalha, explicando que “o movimento estar a crescer à grande escala” não anula as “muitas dificuldades” de participação das pessoas que trabalham.
Na Quinta da Princesa, por exemplo, “grande parte da população é classe trabalhadora” e a “carga horária” não facilita a adesão às atividades propostas pelo Vida Justa, mesmo que aconteçam no bairro, onde as principais reivindicações são mais transportes públicos e melhores habitações.
Não é um bairro autoconstruído, mas “as casas têm péssimas condições” e até “chove dentro”, relata Luísa Semedo, acrescentando que é um território “excluído”, ao qual nunca chegaram as duas estações prometidas do metro de superfície (que existem mas não são utilizadas) e onde só passa um autocarro da Carris Metropolitana.
Estamos agora no concelho da Amadora, na outra margem do rio, com um dos fundadores e porta-vozes do Vida Justa. Nos poucos metros percorridos à procura de um lugar para a entrevista, Flávio Almada, mais conhecido como LBC, fala com uma mão cheia de habitantes, pergunta pela escola e pela vida, ouve queixas, dá conselhos.
É saudado por toda a gente, o que é natural para quem nasceu na Cova da Moura e trabalha no Moinho da Juventude, instituição relevante no bairro.
“Nesses três anos muita coisa aconteceu e ganhámos (…) projeção (…) no espaço público, em termos de questões que (…) não eram muito abordadas a partir da periferia, dos bairros populares”, resume, em jeito de balanço sobre o Vida Justa.
A partir de e não circunscritos a, ressalva, sublinhando que as questões levantadas não importam apenas aos bairros, pois demandam a distribuição da riqueza por quem trabalha. É isso que faz com que quem vive na Cova da Moura se identifique “completamente com a luta” dos bairros populares da Margem Sul, Setúbal, Porto ou Algarve: “Pertencemos à mesma classe, com a sua diversidade.”
Vamos ouvir-lhe frequentemente a expressão “movimento de base popular” e é com ela que responde, desvalorizando, às insinuações de proximidade entre o movimento e alguns partidos políticos.
Nenhuma organização vai “tomar” o movimento, assegura Flávio Almada, sublinhando, porém, que o Vida Justa não é contra os partidos: “Os nossos inimigos de classe a gente sabe perfeitamente quem são (…), ter elementos que fazem parte de partidos da esquerda (…) não nos faz confusão nenhuma, porque são pessoas que militam num partido, mas que engajam no movimento.”
“Nós não vamos ser instrumentos e não vamos perder tempo também com essa forma de nos distrair. O que fala aquilo que nós somos é o nosso trabalho”, situa, recusando as tentativas de “acantonar” o movimento e denunciando “um certo paternalismo, que acha que as pessoas pobres não pensam, que as pessoas pobres que são da periferia não têm uma cabeça própria, não têm um entendimento político”. E vai mais longe, perguntando que partidos da “esquerda tradicional” têm na agenda “a máquina de repressão” policial e prisional.
“A periferia, enquanto condição social, não tem sido escutada, não tem sido ouvida, pelo contrário, essa voz tem sido alvo de uma tentativa de silenciamento e até de criminalização”, aponta Flávio Almada.
O aumento dos preços e do custo de vida foi o mote para a manifestação de 25 de fevereiro de 2023, seguindo-se protestos mais concretos, sobre a morte de Odair Moniz ou a violência nas prisões e adesões a coletivos alargados, nomeadamente o Casa para Viver, em defesa do direito à habitação, ou os da causa palestiniana.
“O que define o caráter do movimento é aquilo que faz”, reitera, assumindo a “pluralidade de pensamento”, que “é uma grande lição” de “convergência” e de “não terraplenar essas diferenças como se fossem antagonismos”.
O que o Vida Justa apresenta é “um programa feito a partir de base” e não “que alguém imaginou ou colocou” nas periferias, para combater “as políticas neoliberais”, reivindicando aumento de salários, habitação digna, acesso aos serviços públicos e promovendo a participação política, sem “reduzir a democracia a meras eleições”.
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