Correspondente SIC
Em quatro anos de guerra em larga escala, Volodymyr Zelensky diz que morreram 55 mil soldados ucranianos. Cada uma dessas mortes tem de ser comunicada à família. A SIC acompanhou um dos militares que tem essa triste e importante missão.
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Vitalii e Serhii procuram a porta onde vão bater para entregar uma notícia. Uma notícia difícil. Percorrem os corredores de semblante carregado. Vão dizer à mulher de Valentin que o marido está desaparecido em combate.
“Quando notificamos, estamos a traumatizar aquela família e é preciso conseguir, de forma muito clara e a tempo, prestar apoio psicológico e apoio social (…). Há muitos casos em que, depois de uma notificação, tanto esposas como mães se suicidam”, conta Vitalii Mazur à SIC.
No total, Vitalii já fez cerca de 700 notificações, mas nem por isso se habituou.
“Quando vês crianças a chorar… a isso não te habituas. Nunca.”
Há quase três anos que Vitalii carrega a responsabilidade de notificar as famílias. Foi ele quem ajudou a desenhar o protocolo nacional que hoje orienta este processo em toda a Ucrânia.
Mas explica que, mesmo com regras comuns, cada notificação exige soluções individuais, e pequenas formas de proteger a mente da dor dos outros.
“De manhã, por exemplo, não tomo pequeno-almoço. Para evitar sobrecarregar o organismo com comida. Faço corrida matinal, duches frios. Tenho até um tapete com agulhas onde me deito às vezes. Ajuda.”
Todos os dias, um pouco por toda a Ucrânia, famílias são informadas do desaparecimento ou da morte de alguém próximo. E todos os dias, há funerais.
“Se não se fala do facto de que somos mortais, e de que amanhã a nossa vida pode acabar, as pessoas esquecem-se de que a vida tem valor e deixam de viver, mesmo estando vivas. Por isso, sim: é preciso falar sobre a morte”, sublinha Vitalii.
Quatro anos de guerra em larga escala deixam marcas. Muitas delas irreversíveis.
