Dezenas de milhares de pessoas, de todas as gerações, voltaram a ocupar o centro da capital para assinalar o aniversário da Revolução dos Cravos, que há 52 anos derrubou a ditadura e abriu o país à democracia.
Cinco décadas depois, a marcha anual continua a servir para clamar “25 de Abril Sempre”, mas também como centro de uma grande variedade de reivindicações e para amplificar os avisos de que a liberdade tem de continuar a ser defendida.
“Acho que é por isso que estão aqui tantas pessoas hoje”, comenta à Lusa Alexandra Mesquita, uma das participantes no desfile, independentemente da cor política de cada um, mas que, na soma das partes, reforça o clamor “Fascismo nunca mais” — um grito sempre presente ao longo da marcha e igualmente manifestado no cartaz que leva na mão.
Aos 56 anos, a artista plástica acredita que “o povo não é assim tão ingénuo” para retroceder nas conquistas alcançadas nas últimas décadas, apesar de não compreender o crescimento do populismo, que a assusta.
“Não sei como é que é possível, o que é que passa pela cabeça das pessoas, não há raiva que justifique votar no Chega, por exemplo, e isso faz-me estar aqui e ter feito este cartaz”, resume em declarações à Lusa.
Cada participante, uma convicção, um apelo ou uma exigência de algo que está ainda por alcançar ou sob risco de se perder. Na forma de outros cartazes, mais elaborados ou apenas numa folha de cartão, repetem-se simples louvores de “viva a Liberdade”, a par da defesa dos direitos à habitação, educação e saúde, LGTB ou contra a proliferação de conflitos no Médio Oriente.
Ou ainda os preços galopantes dos bens essenciais, que são “mais do que um salário”, em manifestações anónimas, ou contra o pacote laboral proposto pelo Governo, nas participações organizadas dos sindicatos.
“Só há liberdade quando houver paz e habitação”, adverte um dos cartazes em cartão, numa pequena síntese de temas em correspondência com a atualidade, que inquieta, em particular, os muitos jovens que hoje desfilaram em Lisboa. “Rendas de 2.300 euros são moderadas?”, questiona Rita, 19 anos, num cartão com o rosto do primeiro-ministro, Luís Montenegro, a quem a pergunta é dirigida.
Tanto Rita como a sua amiga Beatriz, também de 19 anos, permanecem em casa dos pais e gostariam que esta situação não dure para sempre, nem testemunhar colegas em “quartos com dez, vinte pessoas em condições completamente insalubres” e sem perspetiva de mudança.
“O 25 de Abril foi apenas o início da nossa reivindicação pelos nossos direitos e esta é uma luta contínua. Temos de começar já a lutar porque daqui a uns anos vamos ser nós a procurar casa e precisamos que as rendas baixem e o Governo leve isto a sério”, declara Beatriz, que é estudante de Ciência Política.
A memória da revolução foi desde logo simbolizada pelas Chaimite, as icónicas viaturas blindadas usadas pelo Movimento dos Capitães no seu golpe militar há 52 anos, à cabeça da marcha e permanece também viva no cartaz empunhado por um preso político que foi então libertado em Caxias.
Este tipo de presenças e a profusão de cartazes atraem particularmente o historiador e antigo político José Pacheco Pereira, que tomou ele próprio emprestado uma placa com o ‘slogan’ “Abril é cultura como direito”, depois de há quase duas semanas ter protagonizado um debate televisivo com o líder do Chega, André Ventura, sobre presos políticos antes e depois da revolução.
No rescaldo desse duelo tenso, reconhece que “a pedagogia ficou pelo caminho”, mas refere que foi ao mesmo tempo “alguns dos temas que apareceram no debate tornaram-se circulantes e de uma maneira que muitas vezes é hostil ao André Ventura”, servindo para “tirar uma tampa” a que espera que outras se sigam.
Das celebrações de hoje em Lisboa, Pacheco Pereira destaca a presença de “muita, muita gente”, que compareceu “não tanto para fazer uma festa, mas para resistir”. Em causa, prossegue o comentador político, está uma resistência que diz ser crescente “a que as pessoas tenham cada vez menos palavras nas escolas, a quem só lê redes sociais e ‘fake news’, ou ainda à “crueldade para com os mais fracos”.
Aos 73 anos, Manuel Joaquim Saraiva deslocou-se de Évora para participar hoje pela primeira vez no desfile em Lisboa. O dia 25 de abril de 1974 apanhou-o como operário numa oficina e chegou no melhor momento possível para evitar que o recrutamento militar, no mês seguinte, o lançasse para a guerra em África. Mas bem a tempo de acompanhar as incidências da Reforma Agrária no Alentejo.
Cinco décadas depois, consegue finalmente celebrar a liberdade em Lisboa e expressar a sua gratidão pública ao Movimento dos Capitães, mas também gostaria que tivesse servido para beneficiar de “uma vida melhor”, que em todo o caso permite aos jovens as oportunidades que faltaram à sua geração.
“É verdade que estão aqui muitos hoje, mas não basta, são precisos muitos mais” apela Manuel Joaquim Saraiva, que foi empurrado pela crise de 2011 para uma reforma não desejada e lamenta que “o povo não soube aproveitar o 25 de Abril”, apesar de persistir como uma data que merece ser celebrada, fazendo eco de mais um cartaz anónimo: “Não me tirem o Abril herdado dos meus avós”.
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