O especialista em incêndios florestais Domingos Xavier Viegas apontou hoje falhas à Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais, considerando que errou ao separar a proteção civil dos serviços florestais e ao “não ter prestado atenção” aos bombeiros.
“Creio que a AGIF [Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais] teve e tem um papel importante, mas tem também algumas falhas (…). Quando a AGIF define uma estratégia com base numa segmentação dos incêndios rurais, separação entre a proteção civil e os serviços florestais, creio que aqui se cometeu um erro estratégico e que está na génese de algumas das falhas”, disse o diretor do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) aos negócios dos incêndios florestais.
Aos deputados, o investigador avançou que “outro problema da AGIF foi ter proposto metas que não cumpriu, sustentando que “é muito importante”, quando se define objetivos, “ver o que depende realmente da atividade humana e o que depende das condições naturais”.
“Não podemos estar a criar metas que não dependem só da atividade humana. Por exemplo, dizer que não vai arder mais que 660 mil hectares em 10 anos. E o que já se viu é que em seis anos já praticamente atingimos essa meta”, disse.
Xavier Viegas defendeu também que deve ser feito um balanço da AGIF e deu conta que é membro do conselho consultivo da AGIF, um órgão que “tem reunido muito pouco”.
Destacando o papel da AGIF no que toca à ligação das várias entidades, o investigador criticou a forma como a agência olhou para a questão dos bombeiros voluntários.
“Não tratou do problema dos bombeiros a ponto de chegarmos onde estamos agora na relação com os bombeiros, que se tem agudizado em anos anteriores”, disse, lamentando que “há imensos projetos em que a responsabilidade foi dada a outras entidades que não aos bombeiros”.
Para Xavier Viegas, os bombeiros foram excluídos tendo sido dada “muita responsabilidade ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF)”, que “infelizmente mostrou ser uma entidade que não tem capacidade de dar resposta”.
Questionado pelos deputados sobre os meios aéreos de combate a incêndios, o especialista admitiu que a sua gestão “é uma tarefa difícil” e considerou que deve existir uma frota mista com helicópteros de diferentes tipologias e aviões ‘Canadair’ que devem ser detidos pelo Estado e por privados.
“É muito oneroso para o país ser detentor de uma frota de grande dimensão, que é aquela que é necessária em algumas circunstâncias, mas deve ter alguns meios de base para acudir às intervenções não só do país, mas também no quadro da União Europeia”, disse, considerando fundamental que Portugal tenha como meios próprios “uma frota de dois a quatro ‘Canadair’.
Xavier Viegas sublinhou que Portugal é o único país do sul da Europa que não tem aviões pesados de combate a incêndios ‘Canadair’ como meios próprios.
“Recentemente adquirimos helicópteros da Força Aérea Black Hawk, mas aviões creio que era importante ter também”, disse, afirmando ainda que o país fica “infelizmente por vezes refém das empresas [de aluguer de meios aéreos], dos recursos que têm, disponibilidade e da capacidade para servir quando é preciso”.
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) aos negócios dos incêndios florestais, imposta pelo Chega, pretende investigar as causas, a gestão e os eventuais negócios associados aos grandes fogos florestais.
