Estudo publicado na revista Science mostra que as forças mecânicas geradas pela contração cardíaca travam a proliferação de células tumorais.
CANVA
O coração é um dos órgãos mais vascularizados do corpo humano, mas raramente desenvolve cancro, e mesmo as metástases no tecido cardíaco tendem a ser menos frequentes e mais pequenas do que noutros órgãos. Durante décadas, esta observação clínica não tinha uma explicação clara, mas um estudo internacional publicado na revista Science propõe agora que o próprio batimento cardíaco pode funcionar como uma barreira natural ao crescimento tumoral.
A investigação, coordenada pelo laboratório de Biologia Cardiovascular do International Centre for Genetic Engineering and Biotechnology (ICGEB), em colaboração com a Universidade de Trieste e o Centro Cardiológico Monzino IRCCS, conclui que as forças mecânicas geradas pela contração do coração conseguem abrandar de forma significativa a proliferação de células cancerígenas em corações de ratinho e em tecido cardíaco humano.
O estudo parte da hipótese de que, se o músculo cardíaco está continuamente sujeito a contração, pressão e deformação, esse ambiente físico poderá ser hostil para as células tumorais. Para testar a ideia, a equipa liderada por Serena Zacchigna recorreu a modelos experimentais em ratinhos, tecidos cardíacos desenvolvidos em laboratório e amostras humanas de metástases cardíacas.
Nos modelos animais, os investigadores analisaram o que acontecia quando o coração era mecanicamente “descarregado”, ou seja, quando deixava de estar sujeito ao mesmo nível de força mecânica. Nessas condições, as células tumorais proliferaram de forma significativamente mais intensa. Pelo contrário, quando o tecido cardíaco batia e gerava carga mecânica, o crescimento tumoral abrandava. A mesma tendência foi observada em tecidos cardíacos criados em laboratório.
“As nossas descobertas mostram que a pulsação do coração não é apenas uma função fisiológica, mas pode atuar como um supressor natural do crescimento tumoral”, afirma Serena Zacchigna. Segundo a investigadora, isto sugere que o ambiente cardíaco é desfavorável às células cancerígenas “não apenas por razões imunológicas ou metabólicas, mas também porque a sua atividade mecânica contínua limita fisicamente a sua expansão”.
Uma das dimensões mais relevantes do estudo é a comparação entre modelos experimentais e amostras humanas. Os resultados obtidos em laboratório foram confrontados com metástases cardíacas e lesões localizadas noutros órgãos dos mesmos doentes, reforçando a relevância clínica das conclusões.
“Este trabalho foi possível graças à colaboração de especialistas de vários campos, da cardiologia e oncologia à bioengenharia e bioinformática”, sublinha Giulio Pompilio, diretor científico do Centro Cardiológico Monzino IRCCS.
A investigação não aponta ainda para uma aplicação terapêutica imediata, mas abre uma nova linha de investigação que passa por perceber se, no futuro, os estímulos mecânicos podem ser usados como parte de estratégias contra o cancro.
