Portugal

O "até já" de Ricardo Fernandes, o português que foi à Suíça para morrer


“Até já”. Foi assim que Ricardo Fernandes, de 44 anos, se despediu dos seus seguidores das redes sociais. E talvez tenha sido assim também que se despediu dos familiares e amigos que o acompanharam durante a vida e estiveram presentes até à sua última viagem.

O português, que emocionou o país com entrevistas e reflexões sobre a vida e a morte depois de há 16 anos ter tido um acidente de carro que o deixou tetraplégico, optou pela “liberdade medicamente assistida”, como preferia chamar à morte medicamente assistida, e despede-se agora do mundo, na Suíça, onde esta possibilidade é legal.

O ano passado, em entrevista à revista Sábado, o empresário, que deixa dois filhos, contou que já tinha uma data para o fazer. Mas não quis revelar detalhes.

Depois de ter partilhado, ontem, imagens de um convívio com entes queridos no Instagram, revelando que tinha tido um “dia e noite completos de tudo”, hoje partilhou um story, com olhos fechados e auscultadores nos ouvidos e um “até já”.

Ricardo Fernandes © Instagram / Ricardo Fernandes  

Também no Instagram, o alfaiate Paulo Battista, amigo de Ricardo, confirmou o desfecho. “Hoje vais partir e levas parte de mim! Entraste na minha vida sem avisar, mas partes com aviso prévio! Não aceito, é verdade, mas aceito a tua decisão. Vais como queres, tenho a certeza que amanhã vais estar na praia com o pé na areia e, principalmente, com a bola no peito.  Quero só deixar a minha admiração por ti meu amigo! E faz-me o maior favor da vida, dá um beijo à minha filha e diz-lhe que a amamos muito! Amo-te, meu irmão”, escreveu o também comentador social.


“Eu antigamente era um pássaro…”

No dia 9 de maio de 2009, Ricardo Fernandes viu a sua vida mudar de forma drástica. Adormeceu ao volante e sofreu um grave acidente de viação, que o deixou tetraplégico, com uma incapacidade de 95%.

Durante 17 horas, permaneceu no local até ser encontrado e socorrido. O que se seguiu foi um longo período de internamento, com várias infeções, uma traqueostomia e uma paragem cardiorrespiratória.

Apesar das dificuldades, reinventou-se. A sua força de vontade e o apoio incondicional da família fizeram-no renascer e torná-lo um empresário de sucesso, com muito humor, que deu entrevistas tão emocionantes como interventivas, como as críticas que deixou, no jornal ao Expresso, à polémica lei da eutanásia.

“Temos um Presidente da República que já atrasou isto cinco vezes. Nós, historicamente, os portugueses e na sociedade portuguesa, não temos a coragem de tomar as grandes decisões. (…) A verdade é que nesta situação existe um animal doméstico, um cão, um gato, seja o que esteja em sofrimento têm o poder de ter o seu descanso. O ser humano não. Estamos a falar de um Estado que nos obriga a estar cá e depois não ajuda em nada e cria imensas barreiras”, disse em abril do ano passado ao semanário, que o descreveu como “profissional de sucesso, pai babado, um homem orgulhoso do que construiu”.

Apesar de sempre ter demonstrado resiliência, depois de ter deixado os filhos crescerem e já com a “vida construída” e a “casa arrumada”, como chegou a definir, Ricardo nunca escondeu que era defensor da morte medicamente assistida.

Aliás, transformou-se numa espécie de ativista do tema que, como o próprio disse diversas vezes, ainda continua a ser um tabu em Portugal.

Embora tenha construído uma vida “feliz”, desde que sofreu o fatídico acidente houve algo que sempre faltou a Ricardo e que o levou a optar pela morte medicamente assistida, através da Associação Suíça Dignitas: liberdade.

“Eu antigamente era um pássaro. E um pássaro é feito para voar e fazer a sua vida livre. Agora imagine um pássaro que não tem asas, só mexe a cabeça e as patas. Portanto, a essência do pássaro já não existe. E agora pense que o pássaro também não mexe as pernas, só mexe a cabeça. Isto não é nada. Pode fazer sentido para algumas pessoas, há pessoas que estão acamadas e faz-lhes sentido estarem cá. Para mim, não faz sentido”, explicou em entrevista à revista Sábado, o ano passado, precisamente no mês em que se assinala liberdade e que escolheu também para partir.

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