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“Senti que estava numa missão suicida”: voluntários abandonam a Ucrânia


Repórteres do Mundo

Milhares de voluntários estrangeiros lutaram na Ucrânia em quatro anos de guerra, mas nem todos estão convictos de terem feito a escolha certa. A dissolução de uma das brigadas internacionais expôs os problemas: perdas pesadas, falta de comunicação e escassez de meios. Para muitos, a única solução é abandonar a defesa da Ucrânia.

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Harm regressou recentemente aos Países Baixos. O neerlandês foi voluntário na linha da frente da guerra da Ucrânia. Desiludido voltou para casa com a sensação amarga de ter escapado por pouco a uma morte anunciada.

“O ar está cheio de drones. Eles estão a apontar para ti. Isso faz-te gelar por dentro.”

Harm foi piloto de drones na Brigada Internacional. O grupo, agora desmantelado pelo Exército ucraniano, acumulou perdas elevadas e enfrentou muitas dificuldades na comunicação interna. Os voluntários estrangeiros sentiam-se muitas vezes entregues à própria sorte.

“Comemos, dormimos e fazemos tudo num buraco. Há imensos ratos que passam por cima de ti enquanto dormes.”

Como piloto de drones, monitorizava os movimentos das tropas russas, mas o trabalho nunca o afastou da linha de fogo. A pressão psicológica era constante: cada passo fora de abrigo podia ser o último.

Uma motivação espiritual e um choque com a realidade

Harm admite que a decisão de partir não foi apenas política. Foi pessoal e, em certa medida, espiritual.

“Queria orientação. Não tive escolha. Foi uma mensagem vinda de cima. Não sou o melhor cristão, mas foi um dos motivos para ir.”

Antes de chegar à linha da frente, Harm ajudou em tarefas logísticas, incluindo o transporte de corpos de soldados ucranianos. Recorda os contentores cheios de mortos e a dificuldade emocional de lidar com esses momentos. A formação como operador de drones levou-o depois para zonas de combate. E foi aí que, pela primeira vez, percebeu o tamanho do desequilíbrio de meios entre russos e ucranianos.

“Temos pouco de tudo. Trabalhamos com o que temos. O inimigo é mais forte, nós somos um pouco mais espertos, mas o inimigo continua mais forte.”

“Senti que estava numa missão suicida”

O voluntário neerlandês aguentou duas semanas na linha da frente. A intensidade dos combates e a falta de recursos convenceram-no a rasgar o contrato e a pedir o regresso imediato ao seu país. A decisão ainda pesa a Harm.

“A minha cabeça ainda está lá. A vida aqui não importa muito. Muitos amigos ficaram e continuam sem mim. Claro que sinto que os abandonei.”

O testemunho de Harm surge num momento em que várias fontes militares confirmam dificuldades recorrentes nas brigadas internacionais: falta de equipamento, desgaste operacional e expectativas divergentes entre voluntários e comando ucraniano.



SIC Noticias

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