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Ativista de 91 anos percorre Irlanda a pé em protesto contra uso militar de aeroporto pelos EUA


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Lelia Doolan atravessou grande parte da Irlanda a pé para protestar contra o uso do Aeroporto de Shannon, no condado de Clare, para manobras militares dos EUA. Durante duas semanas, a ativista pela paz e produtora cinematográfica percorreu 220 quilómetros. Ao chegar a Dublin, na quarta-feira, entregou uma petição ao Governo irlandês para proibir os voos militares norte-americanos no espaço aéreo da Irlanda.

Ativista de 91 anos percorre Irlanda a pé em protesto contra uso militar de aeroporto pelos EUA

Niall Carson – PA Images

A ativista começou a caminhada no dia 31 de março, com ponto de partida no Aeroporto de Shannon. Apesar de ter feito a maioria da distância a pé, houve momentos em que não o fez e, claro, momentos para paragens.

“Os aviões militares dos EUA aterram sem que ninguém no Governo tenha dado autorização para os revistar ou verificar o seu conteúdo. Shannon é um aeroporto civil. Não é um aeroporto militar”, disse Lelia Doolan, de acordo com o The Guardian.

A luta não é de agora. Durante décadas, vários ativistas têm-se voltado contra o acordo que permite que os Estados Unidos parem os seus aviões militares no aeroporto para fins de abastecimento.

Ao ser o aeroporto mais ocidental da Europa, o Aeroporto de Shannon ocupa uma localização estratégica. Já nos anos 40, tornou-se numa escala de reabastecimento transatlântica para voos militares e diplomáticos dos EUA.

O Governo garante que o aeroporto não é utilizado em operações de combate dos Estados Unidos e defende que não há qualquer provas de que armas, munições ou qualquer tipo de outro material militar tenham entrado no espaço aéreo irlandês.

Apesar disto, coincidentemente, no dia de partida, no Aeroporto de Shannon, a ativista cruzou-se com vários militares norte-americanos que seguiam armados.

Doolan considera que o acordo, que autoriza determinados voos militares dos EUA, viola a neutralidade da Irlanda no contexto da guerra no Médio Oriente e deixa as pessoas no engano a pensar que a prática tem de manter-se. “Não tem de continuar”, retorque a ativista de 91 anos.

Contestação ao uso militar norte-americano

O protesto contra o uso norte-americano de aeroportos ou bases aéreas para fins de ataque no Médio Oriente vai para além das fronteiras irlandesas. Um pouco por toda a Europa, a contestação difunde-se.

Um manifestante protesta antes da chegada do presidente dos EUA, Donald Trump, ao Aeroporto de Shannon, a 5 de junho de 2019

Peter Morrison / AP

Mais recentemente, na semana passada, um homem na casa dos 40 anos foi detido após ter danificado com um machado um avião de transporte da Força Aérea dos EUA que se encontrava estacionado numa pista do Aeroporto de Shannon.

Abraços e aplausos após os mais de 200 quilómetros

Na ‘meta’, Lelia Doolan era esperada por um grande grupo de pessoas. Entre ativistas, amigos e políticos da oposição, a ativista foi recebida, na Leinster House, que alberga as câmaras do Dáil Éireann e do Seanad, o Parlamento irlandês, com fortes aplausos, abraços e bandeiras da Palestina a esvoaçar.

No Dáil, a líder do Partido Trabalhista, Ivana Bacik, elogiou o gesto da ativista e pressionou o Governo a voltar atrás com a autorização do uso dos aviões militares norte-americanos do aeroporto em questão.

Niall Carson – PA Images

O primeiro-ministro da Irlanda, Micheál Martin, expressou igualmente o seu respeito por Doolan e disse que tentaria encontrá-la. Porém, quanto ao busílis da questão, o governante afirmou que o Aeroporto de Shannon não desempenhava qualquer papel no conflito do Médio Oriente.

“Temos de ter muito cuidado para não classificar erroneamente o Aeroporto de Shannon. Penso que isso prejudicaria o aeroporto”, disse Micheál Martin.

Aeroporto é ou não ainda utilizado pelos EUA?

O papel da Irlanda nas manobras militares norte-americanas é várias vezes questionado. Nos últimos 20 anos, soldados norte-americanos passaram pelo Aeroporto de Shannon, dado que este se tornou num importante ponto de paragem para as Forças Armadas dos EUA, especialmente no que diz respeito às operações no Médio Oriente, como as incursões no Afeganistão e no Iraque.

De acordo com os dados obtidos e analisados pelo RTÉ News, um dos maiores jornais irlandeses, entre 2022 e 2024, cerca de 2 mil aeronaves militares norte-americanas e operadores aéreos civis dos EUA, com munições de guerra a bordo, solicitaram autorizações para fazer escala na Irlanda.

Os aviões não são, no entanto, sempre revistados e inspecionados pelas autoridades irlandeses. O órgão de comunicação local afirma que apenas 0,1% dos pedidos dos EUA foram recusados para aterrar ou sobrevoar a Irlanda devido à “natureza do total de munições de guerra que se pretendia transportar”, informou o Ministério dos Transportes da Irlanda à RTÉ News.

O Governo irlandês garante que a Irlanda é militarmente neutra e que estabelece uma fronteira entre envolvimento armado e as posições de política externa.

No entanto, todos os meses há aeronaves militares e civis a aterrar e a descolar de Shannon, o que traz à tona a controvérsia se o tráfego militar se enquadra ou não nos parâmetros da prática dessa neutralidade.



SIC Noticias

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