Cultura

Carla Maciel (parte 1): “Há muitos anos sofri de assédio no teatro, bati com a porta e fiquei sem trabalho. Percebo as mulheres que ficam em silêncio”

A Beleza das Pequenas Coisas

Podcast

Com mais de 30 anos de percurso, a atriz e encenadora Carla Maciel é reconhecida pela qualidade do seu trabalho no teatro, televisão e cinema. Afirma-se “uma resistente”. E aqui conta alguns episódios infelizes no passado que a fizeram bater com a porta, e como deu a volta por cima. A atriz está agora em cena na peça “Veneno – História de um Casamento”, no Teatro Aberto, em Lisboa, onde contracena com o marido, o ator Gonçalo Waddington. Os dois interpretam o reencontro difícil de um casal que perdeu o filho. “É a maior tragédia. Só de pensar, abre-se um buraco no coração.” Ouçam-na nesta primeira parte do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”, de Bernardo Mendonça

Como se sobrevive à morte de um filho? Como é que um casal resiste a tamanha dor? Depois de uma separação, há memórias e ressentimentos que nunca mais se enterram? Ou o tempo tudo cura?

Estas são algumas das questões que pairam na peça de teatro “Veneno – História de um Casamento”, da autoria da dramaturga neerlandesa Lot Vekemans, encenada por João Lourenço, e que estará em cena até 3 de maio, no Teatro Aberto, em Lisboa.

O casal da história é interpretado pelos atores Carla Maciel e Gonçalo Waddington, que são um casal na vida real, e que aqui representam um reencontro duro e difícil, depois de uma rutura de 10 anos de silêncio.

Matilde Fieschi

Ela e ele confrontam-se com duas formas distintas de viver um trauma. Há um que fica, outro que parte. E fala-se do direito à tristeza, assim como o direito à esperança e a querer continuar o caminho depois de um fim.

Como está a ser para este casal de intérpretes viver na ficção uma história de amor que acabou, mas que não se apaga?

Matilde Fieschi

A atriz e encenadora Carla Maciel responde a esta questão logo no arranque desta conversa. E aqui se revela uma intérprete rigorosa, obcecada pelo detalhe, e por chegar à verdade das personagens.

Noutra peça anterior, “Casa Portuguesa”, de Pedro Penim, esteve perfeita no lugar de uma mulher que gere as sombras de uma casa em decadência, com um pai demente às voltas com os fantasmas do passado, e um filho que questiona as convenções da sociedade patriarcal. Uma peça que colocou em diálogo, no palco, as injustiças, violências, opressões e desigualdades que se perpetuam na história do nosso país. O que pode a arte acrescentar à discussão destes temas na sociedade?

Matilde Fieschi

A propósito, recordam-se aqui as palavras de Lot Vekemans, a autora da peça “Veneno – história de um casamento”:

“Acredito que a arte pode ser um guia potencial em tempos de crise, porque torna visíveis e audíveis processos invisíveis que temos dificuldade em nomear.” E mais diz: “Acho que sempre que a arte se move para manter o poder, a arte acaba por perder.”

Que futuro para a cultura neste país? Como é sobreviver num sistema cultural intermitente, onde o reconhecimento raramente coincide com a estabilidade? Este é um país que celebra a cultura, e tira partido dela, mas que não a apoia o suficiente?

Carla Maciel aprendeu cedo o valor do trabalho e do sonho, e a resistir às quedas e dificuldades no caminho. Como afirma a personagem Nina, da peça “A Gaivota”, de Tchekhov, “é preciso resistir, resistir, resistir.”

Carla cresceu em Rio Tinto, cidade do município de Gondomar, no Porto. E, talvez muitos não saibam, que antes da representação, descobriu a música e a dança.

Logo aos 6 anos começou a cantar com o pai e os irmãos num grupo de música popular portuguesa, os “1º de Maio”. Nessa formação, não só cantava, como tocava cavaquinho, bombo, percussão e cantava.

Matilde Fieschi

Carla conta que fez um sem fim de espectáculos, em playback, e que, até aos 17 anos, atuou tanto em festas populares como em casamentos. Foi precisamente com o dinheiro dessas atuações que tirou a carta.

Além da boa voz, a atriz passou a ser conhecida entre as pessoas próximas por ser muito boa em imitações. E chegou mesmo a ir a um programa da manhã da RTP imitar a Tancinha da novela “Sassaricando”, personagem de onde fazia parte do júri o ator Marcos Frota. Não correu mal. Ganhou um aspirador.

Participou depois também num concurso de lambada e ganhou uma viagem ao Brasil …que nunca aconteceu.

Matilde Fieschi

Quando decide finalmente ser atriz, era ainda menor, mas para acelerar o caminho, falsificou a idade para entrar no curso de teatro na Companhia Seiva Trupe, onde acabou por trabalhar durante 6 anos.

Mudou-se mais tarde para a capital, depois de um episódio infeliz e traumático. Bateu com a porta e foi em busca de outras oportunidades.

Em Lisboa, o recomeço não foi fácil. Pensou em desistir várias vezes. Bateu a muitas outras portas. Um dos seus primeiros trabalhos foi no teatro de revista, no ABC, no Parque Mayer, em Lisboa, mas acabou por se despedir por falta de pagamento.

Desde aí, trabalhou com muitos encenadores e realizadores. E, mais recentemente, começou a encenar.

Carla diz-se uma autodidata, apurou-se fazendo cursos durante toda a sua carreira. Uma das grandes vitórias da sua vida foi ter conseguido tirar numa idade mais madura um mestrado em teatro, isto além das tarefas de mãe e de atriz.

E aqui se revela “uma romântica”. Acredita que “tudo é definido pelo amor que colocamos nas coisas”. Mas também diz que, ao longo da vida, aprendeu que “a sinceridade nem sempre é a melhor opção.” Há verdades que doem? Ou que destroem mais do que mentira? Mesmo entre um casal? Carla responde.

Matilde Fieschi

Carla Maciel assegura que não é de ficar muito agarrada ao passado e diz acreditar na realização dos sonhos, embora sinta que “o tempo é como uma areia que nos escapa das mãos.” Com o que é que Carla ainda sonha?

E como reflete estes tempos cada vez mais rachados, de novos radicalismos, ódios e extremismos? Qual o lugar da arte e do teatro neste diálogo e reflexão?

O teatro deve incomodar ou acolher — ou ambas as coisas? O teatro pode ajudar a repensar uma ideia de casa, de cidade, de país e de mundo?

Resistir é ainda um dos verbos que representam Carla Maciel na vida e na arte? Carla responde a tudo isto na primeira parte deste podcast.

Matilde Fieschi

Nesta nova temporada, o genérico é agora assinado por A Garota Não. Os retratos são da autoria de Matilde Fieschi. E a sonoplastia deste podcast é de Francisco Marujo.

A segunda parte desta conversa fica disponível na manhã deste sábado.



SIC Noticias

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