Portugal

De cravos ao peito milhares de pessoas pintaram o Porto de Liberdade

Chegaram novos e chegaram velhos, sozinhos ou em grupo, uns perdidos, outros achados. Pelas 15h00, junto à antiga sede da polícia política no Porto, no Largo Soares dos Reis, a estrada já era curta para os milhares de manifestantes que se juntavam para dar início aos festejos do 25 de Abril na cidade.

“Temos de mostrar que Abril está vivo”, disse à Lusa o antigo sargento “Casanova”, 79 anos, equilibrado em duas bengalas, mas, segundo o próprio, “ainda com força para pôr os fachos a correr”.

Ao fundo, a voz de Zeca Afonso dava o mote. Junto a um semáforo, de ar perdido e encantado, um casal, com um cravo na mão e sem saber muito bem onde o pôr, tentava perceber o que acontecia: “Porque é que está tanta gente na rua? É uma revolução”, questionavam a um polícia.

“Já foi, há 52 anos”, respondeu o agente. As perguntas continuaram. As respostas eram curtas e entre sorrisos atrapalhados o agente avisou que a marcha ia começar. “Já agora, essa flor põe-se ao peito”, disse ainda.

Pelas ruas do Porto desfilaram milhares de pessoas, muitas famílias, muitas crianças, animais de companhia. “É a festa da Liberdade”, explicou à Lusa uma dessas crianças, de 5 anos e de nome “Litos”.

Questionado sobre se sabia o que era a Liberdade, o pequeno respondeu, seguro: “É poder fazer o que eu quiser”, para menos de 10 segundos depois acrescentar, “mas a mamã tem de deixar”.

Numa cidade marcada pelo turismo e pela imigração, eram muitos os estrangeiros que acompanhavam a marcha, filmavam, fotografavam, tentavam cantar. “Isto é uma festa. No meu país nunca vi disto”, disse à Lusa Ahmed, sírio, em Portugal há dois anos.

“Este país tem-me ensinado muito. Aqui aprendi o que era a paz e, mesmo pobre, durmo sem medo”, disse, num inglês gramaticalmente certeiro, mas de pronúncia cerrada. Na Síria foi Economista, aqui é porteiro num hotel. “Sou feliz”, confessou.

Ahmed acompanha a política portuguesa: “Vou perguntando o que se passa. As coisas não estão fáceis para nós [imigrantes]. Culpam-nos de tudo. Eu vim fugido à guerra e à fome, só quero trabalhar, mas, às vezes, sou insultado. Isto assusta”, lamentou.

De cruzamento em cruzamento, os manifestantes seguiram. Cantavam em coro, entoavam palavras de ordem: “Fascismo nunca mais”, foi um dos apelos mais repetidos.

“Sabe menina, eu quando vejo isto só me apetece chorar. No 25 de Abril eu era quase um garoto, andava descalço. Estava na escola e não sabia se ia ter comida quando chegava a casa. A revolução trouxe-nos esperança”, contou André do Couto Santos e Moura.

E continuou: “Mas nestes últimos anos perdeu-se muito do encanto. É a crise, mas não é a do dinheiro, é a dos valores. É por isso que ao ver esta juventude aqui me apetece chorar, mas porque me dá outra vez esperança”, disse.

Os manifestantes começaram, cerca de hora e meia depois, a chegar à Avenida dos Aliados, onde a festa vai continuar.

Pela praça, um lamento. O preço dos cravos.

“Dois euros e meio por um cravo? Está pior do que o gasóleo”, ouviu-se.

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