Cultura

Dono de cadela na Austrália curou cancro incurável com IA? A SIC Verifica


SIC Verifica

Nas redes sociais sugere-se que Paul Conyngham, empresário de tecnologia que foi noticiado por ter criado uma vacina personalizada para a sua cadela, conseguiu, recorrendo à Inteligência Artificial (IA), curar o cancro do seu animal de estimação. A SIC Verifica.

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O caso foi amplamente noticiado em vários órgãos de comunicação, mas nas redes sociais gerou-se a confusão. Apesar de, na maioria dos casos, a história ter sido bem contada, noutros misturou-se factos com desinformação.

Vejamos uma publicação feita no Facebook que diz o seguinte: “um tipo utilizou a IA para salvar o cão com cancro, sequenciando o seu ADN e criando uma cura personalizada“.

O texto que se segue a esta frase acaba por explicar que o que existiu foi uma redução da doença, mas, não sendo este caso único a falar em “cura”, verificamos o que realmente aconteceu.

Como explica a revista especializada em ciência The Scientist, Paul Conyngham recusou-se a aceitar a ausência total de esperança quando os veterinários lhe disseram que a sua cadela de cinco anos, Rosie, tinha um cancro terminal. Não contente com o diagnóstico, Conyngham recorreu ao ChatGPT e à AlphaFold – duas plataformas de IA – para criar uma vacina de mRNA personalizada. Mas não o fez sozinho.

O empreendedor australiano da área de tecnologia contou com a ajuda de cientistas para conseguir a vacina personalizada que garantiu a remissão do cancro de Rosie. A vacina foi fabricada e administrada por cientistas da UNSW Sydney (University of New South Wales) e da University of Queensland, sendo que a UNSW é clara: “Não é uma cura e ninguém sabe quanto tempo demorará a sua recuperação, mas o sucesso de Paul aponta para uma nova era da medicina personalizada.

Os especialistas mostraram-se otimistas, apontando que “casos como o de Rosie mostram-nos o quão perto estamos de uma medicina verdadeiramente personalizada para pacientes humanos e os obstáculos que teremos de superar para lá chegar“.

“A Rosie continua com cancro e a doença continua incurável, mas, por agora, ela está melhor e os tumores diminuíram tanto que já se conseguem ver as pernas dela”, declarou a UNSW.

A cadela tem um mastocitoma do tamanho de uma bola de ténis na perna e a mobilidade estava a diminuir. Este é um tipo comum de cancro da pele em cães, como explica, ao SIC Verifica, Nuno Brito, o coordenador do Mestrado Integrado em Medicina Veterinária da Cooperativa de Ensino Superior Politécnico e Universitário (CESPU).

“Este tumor é um tumor relativamente frequente nos cães. Cerca de 20% dos cancros de pele são mastocitomas e cerca de 0,1 a 0,2% da espécie canina têm esta tipologia de tumores“, afirma.

Sobre a utilização de IA na ciência, Nuno Brito considera que se trata de uma “facilitadora” de processos que foi útil. No entanto, há que esclarecer que “não substitui aquilo que é relevante do ponto de vista de evidência científica”.

“A evidência científica implica que, de alguma forma, exista uma solução, digamos assim, uma terapêutica que seja baseada obviamente em dados científicos que podem ser reproduzidos ou reprodutíveis. E essa é a evidência científica que, de facto, não existiu neste caso. (…) O ponto importante é que, de facto, não é assim que se faz ciência, não é assim que nos dá a nós, utilizadores na área da saúde e até doentes, consumidores, a confiança de termos algo que possa ser útil nas nossas situações mais difíceis e isso implica que tenhamos algum cuidado, algum cuidado na forma como informamos”, conclui.

Na opinião do docente, a IA, neste caso e na ciência e medicina em geral, deve ser olhada com o devido olhar crítico, recorrendo à mesma como facilitador de processos.

A SIC Verifica que é…

Paul Conyngham utilizou IA para criar vacina personalizada que reduziu cancro na sua cadela Rosie, mas não o curou. Além de que se trata de um caso concreto que não pode ser reproduzido. Ainda assim, admite-se que, no futuro, a IA venha a tornar-se uma “facilitadora” de processos, ajudando, quem sabe, na medicina e ciência.

Envie-nos as suas sugestões de fact-checks através do Whatsapp – 925 325 121 – ou do endereço de e-mail sicverifica@sic.pt



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