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Escavações na Amazónia descobrem artefatos com mais de 6 mil anos e pistas sobre habitantes antes da colonização

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A pavimentação de estradas na floresta amazónica há muito que provoca desflorestação, ameaçando as pessoas que lá vivem, mas também têm permitido aos arqueólogos vislumbrar o passado da região muito antes da chegada dos europeus para a remodelar.

Jordi Salas | GettyImages

Entre os achados até ao momento, em nove sítios arqueológicos, estão vasos de cerâmica que podem ser urnas funerárias, bem como pequenos artefactos que fazem lembrar rostos humanos, noticiou na quinta-feira a agência Associated Press (AP).

“O que sabemos sobre o passado da região está também ligado à abertura criada por estes projetos, o que confere à nossa relação com eles um caráter algo ambivalente”, realçou Lúcio Flávio Costa Leite, diretor do Centro de Pesquisas Arqueológicas do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá, no norte do Brasil.

“Ao mesmo tempo, o conhecimento que adquirimos sobre estes sítios leva-nos a prestar mais atenção a estas regiões, adotando inclusive medidas de proteção permanentes”, acrescentou.

Os cientistas destacaram que as investigações recentes reforçaram a compreensão do passado da região não como um deserto humano, mas antes como uma paisagem moldada por sociedades interligadas muito antes da chegada de Colombo.

O material encontrado ao longo da BR-156, no estado do Amapá, por exemplo, incluía cerâmica em múltiplos estilos e técnicas que refletiam influências de comunidades que iam desde o estado do Pará, no Brasil, até às Caraíbas.

Peça com mais de 6 mil anos e até vestígios portugueses

Um dos arqueólogos, Manoel Fabiano da Silva Santos, contou que as camadas do solo amazónico que escavou representam uma linha temporal histórica.

Nas camadas superiores, encontrou artigos como porcelana portuguesa e pregos ligados à ocupação europeia.

“Escavando mais fundo, descobrimos cerâmica associada à presença indígena anterior, marcando a transição do sítio antes e depois da chegada dos colonizadores”, salientou Santos.

Os artefactos farão eventualmente parte da coleção estadual de Amapá, supervisionada por Costa Leite, que inclui cerca de 530.000 peças.

A peça mais antiga tem cerca de 6.140 anos, confirmando uma longa presença humana no Amapá, apontou.

Os artefactos oferecem informações sobre a forma como as antigas sociedades indígenas viviam, morriam e interagiam com a floresta tropical.

Uma das zonas históricas mais impressionantes do Amapá encontra-se na cidade de Calcoene, onde um monumento de pedra milenar, composto por 127 monólitos esculpidos, dispostos em círculo com cerca de 30 metros de diâmetro, está situado num campo aberto no meio da floresta tropical e limitado por um rio de águas calmas.

Alguns apelidaram o Parque Arqueológico do Solstício de “Stonehenge da Amazónia” pela sua semelhança com o monumento britânico.

Os investigadores descobriram que as pedras estavam posicionadas para que, durante o solstício de inverno no Hemisfério Norte, marcassem o ponto exato do nascer do sol, explicou a arqueóloga Mariana Petry Cabral, professora da Universidade Federal de Minas Gerais, que integrou a equipa que iniciou as escavações no local há cerca de duas décadas.

Investigações e escavações subsequentes revelaram que o sítio serviu também como cemitério.

A datação por radiocarbono mostrou que este foi ocupado durante centenas de anos, a partir de há cerca de 1.100 anos, revelou.

As modernas investigações arqueológicas e de ecologia histórica mostram que os povos indígenas não só viveram na Amazónia durante séculos, como também a moldaram.

Geriam e cultivavam a paisagem através de práticas sustentáveis a longo prazo, destacou Eduardo Neves, professor de arqueologia na Universidade de São Paulo.

Neves estuda a floresta da Amazónia há mais de 30 anos e, desde 2023, lidera o projeto Amazónia Revelada, que utiliza imagens de satélite para identificar sítios arqueológicos escondidos sob a copa das árvores.



SIC Noticias

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