O ex-secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico Oliver Robbins afirmou, nesta terça-feira, no Parlamento que encontrou um “forte clima de pressão” para acelerar a nomeação de Peter Mandelson como embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos.

Alastair Grant
Numa audição na Comissão dos Negócios Estrangeiros, Robbins, que foi despedido na semana passada, explicou que, quando assumiu o cargo a 20 de janeiro do ano passado, o processo já estava em fase avançada.
Segundo o responsável, Mandelson já tinha acesso a instalações e a informação confidencial de baixo nível, tendo também recebido, “pontualmente”, acesso a informação oficial.
“Havia uma expectativa muito forte de que estivesse no posto o mais rapidamente possível”, afirmou, referindo que o primeiro-ministro, Keir Starmer, já tinha feito o anúncio público.
Robbins descreveu ainda uma “atitude geralmente desvalorizadora” relativamente ao processo de verificação de segurança [vetting], com o foco colocado na rapidez da colocação em Washington.
Ex-funcionário afirma que gabinete do PM não manifestou interesse nas questões de segurança
Questionado pela deputada trabalhista Emily Thornberry, presidente da comissão parlamentar dos Negócios Estrangeiros, Robbins indicou que, durante janeiro, houve contactos “muito frequentes” do gabinete do primeiro-ministro com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, procurando saber quando o processo estaria concluído, sem, contudo, manifestar interesse nas questões de segurança associadas.
Robbins afirmou não ter recebido contactos diretos de responsáveis políticos, referindo que as interações ocorreram ao nível de funcionários públicos, recusando nomeá-los.
“Posso já não ser funcionário público, mas não vim aqui hoje para fazer dos outros funcionários públicos bodes expiatórios”, vincou.
Na segunda-feira, o primeiro-ministro britânico criticou Robbins por não o ter informado que a nomeação de Peter Mandelson tinha recebido um parecer negativo do serviço responsável por avaliar a sua integridade e segurança para ter acesso a documentos confidenciais.
“Ele poderia e deveria ter partilhado esta informação de importância crucial comigo antes de Peter Mandelson assumir o cargo, e deveria tê-lo feito em várias ocasiões depois disso. Foi por causa disso que perdi a confiança nele”, afirmou Starmer no Parlamento.
Os partidos da oposição pediram a demissão do primeiro-ministro, alegando que ele mentiu anteriormente aos deputados sobre o processo de nomeação do antigo embaixador, demitido em setembro devido à relação com o financeiro norte-americano Jeffrey Epstein, condenado por aliciar uma menor, em 2008.
Starmer também foi criticado por vários deputados trabalhistas, mas o chefe do Governo respondeu que não sabia que tinham sido levantadas dúvidas à nomeação de Mandelson e que lhe tinha sido dito que o processo de avaliação tinha sido respeitado.
O Código Ministerial britânico determina que os ministros que, conscientemente, induzam o Parlamento em erro devem demitir-se e que qualquer erro involuntário deve ser corrigido “o mais cedo possível”.
“Reconheço que as informações de que eu deveria ter tido conhecimento, e de que a Câmara [dos Comuns] deveria ter tido conhecimento, deveriam ter sido apresentadas à Câmara, mas não induzi a Câmara em erro”, sublinhou.
