Distinção da AACR apoia um projeto de Ana Luísa Correia sobre os mecanismos que mantêm as células tumorais dormentes e que podem abrir novas vias para prevenir metástases.
Paulo MatosPaulo Matos/Getty
Uma investigadora da Fundação Champalimaud foi distinguida com um financiamento de 1 milhão de dólares para estudar um dos enigmas mais difíceis da oncologia: perceber como é que o organismo consegue manter o cancro “adormecido” e o que faz falhar esse equilíbrio, permitindo o seu regresso sob a forma de metástases.
Ana Luísa Correia, investigadora principal na instituição lisboeta, recebeu um dos novos AACR Trailblazer Research Grants for Early-Stage Investigators, atribuídos pela American Association for Cancer Research (AACR). O projeto, com a duração de três anos, integra aquele que a associação descreve como o maior programa de financiamento de sempre lançado pela entidade para apoiar cientistas em fases decisivas da carreira. Ao todo, foram selecionadas 15 investigadoras para partilhar 15 milhões de dólares.
O trabalho de Ana Luísa Correia, intitulado “Neuro-immune regulation of metastatic breast cancer dormancy”, foca-se nas metástases, responsáveis pela maioria das mortes associadas ao cancro. Quando a doença se dissemina, algumas células podem abandonar o tumor original e instalar-se noutros órgãos, onde permanecem invisíveis e dormentes durante anos, antes de voltarem a crescer.
“Apesar de serem completamente cancerígenas, estas células podem permanecer ocultas durante anos”, explica a investigadora.“Compreender o que as mantém dormentes – e o que desencadeia o seu crescimento novamente – é uma das grandes questões em aberto na investigação em cancro”, acrescenta.
A hipótese central do projeto é que esse “interruptor” é regulado por um mecanismo ainda pouco explorado, que promove a comunicação entre o sistema nervoso, o sistema imunitário e as células de suporte dos tecidos. Em termos práticos, a equipa quer perceber de que forma os sinais vindos dos nervos e das células imunitárias conseguem manter estas células disseminadas em dormência ou, pelo contrário, favorecer o seu crescimento.
O estudo vai focar-se no fígado, um dos locais mais frequentes e mais letais de metástase no cancro da mama. Para isso, vai combinar biologia do cancro, imunologia, neurociência e análise computacional, recorrendo a modelos em ratinho, amostras humanas e tecnologias avançadas que permitem analisar os tecidos célula a célula e mapear a localização dos diferentes sinais.
Por um lado, a ambição é compreender melhor como funciona esta rede de comunicação neuro-imunitária. Por outro, abrir caminho a novas abordagens terapêuticas. Em vez de atacar o cancro apenas quando as metástases já estão formadas, a ideia poderá passar por manter permanentemente dormentes as células disseminadas ou torná-las visíveis ao sistema imunitário para que sejam eliminadas.
“Este financiamento Trailblazer irá impulsionar os esforços do meu laboratório para compreender como a comunicação de longa distância entre os sistemas nervoso e imunitário controla a formação de metástases específicas de cada tecido”, afirma Ana Luísa Correia. “Este é um dos desafios mais estimulantes da investigação em cancro para os próximos anos, e liderar este caminho permitirá concretizar a minha ambição de me tornar uma referência nesta área”.
Licenciada em Biologia Aplicada pela Universidade do Minho, Ana Luísa Correia doutorou-se no Lawrence Berkeley National Laboratory, nos Estados Unidos, e fez pós-doutoramento no Friedrich Miescher Institute e na Universidade de Basileia, na Suíça. Hoje lidera o laboratório Dormência do Cancro e Imunidade na Fundação Champalimaud, onde estuda precisamente a forma como as células cancerígenas disseminadas interagem com o ambiente de cada órgão.
