Cultura

Garcia Pereira: “Com fascistas não se debate, combate-se. A democracia não pode ser tolerante com aqueles que a querem destruir”

A Beleza das Pequenas Coisas

Podcast

Garcia Pereira é advogado e um histórico combatente do fascismo. Há décadas que surge na frente de combate aos despedimentos, à precariedade, aos salários baixos, ao abuso patronal e à erosão dos direitos para quem trabalha. Ouçam-no nesta primeira parte do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas” de Bernardo Mendonça

António Garcia Pereira foi distinguido há dois anos com o Prémio Nelson Mandela 2024, atribuído pela ProPública, pelo trabalho em prol dos mais vulneráveis. Recentemente, apresentou uma queixa crime ao Ministério Público a pedir a extinção do Chega por violação da Constituição, nomeadamente por alegar ser um partido neofascista. Voz crítica da proposta do Governo para a reforma laboral, Garcia Pereira alerta: “As medidas baseiam-se no trabalho precário, salários baixos e facilitação dos despedimentos. O país perderá com isto”.

Garcia Pereira é advogado e um histórico combatente do fascismo. Doutorado em direito do trabalho, foi professor universitário e a sua biografia cruza academia e combate cívico.

Perante o estado das coisas, e das lutas entre Governo, patrões e sindicatos de trabalhadores, são várias as perguntas que se impõem neste podcast:

Quando hoje se fala de “flexibilização”, de “modernização” e de “competitividade”, estamos a falar realmente de progresso ou de regressão a tempos de má memória?

Matilde Fieschi

Como acompanhar a evolução dos tempos sem enfraquecer a força laboral e o direito dos trabalhadores? Como acolher inovação sem normalizar a exploração, o abandono e a precariedade? Como usar a inteligência artificial, automação e novos modelos produtivos sem transformar o trabalhador numa peça temporária, descartável, de pouco valor, sem rede, sem proteção, o elo sempre mais fraco deste jogo económico?

Matilde Fieschi

Será possível um capitalismo com limites? Um mercado que reconheça que nem tudo pode ser comprado, acelerado, externalizado? Ou a lógica dominante continuará a medir valor apenas pelo lucro trimestral, sem se medir o custo da dignidade humana e da qualidade de vida da população portuguesa? Nestas mudanças por mais produtividade, quem beneficia e ganha mais com elas?

O que leva também à pergunta: Quando o trabalho perde direitos, o que perde a democracia? Quando o medo entra no emprego, não entra também na cidadania? E se o futuro for inevitavelmente mais liberal e mais automatizado, como garantir que seja com regras justas para que os trabalhadores portugueses tenham direito a uma vida digna e estável, e poderem sonhar com uma casa, filhos, família?

Ao longo do seu percurso António Garcia Pereira tem tido inúmeras vitórias relevantes na Justiça, e, por diversas vezes, foi premiado e distinguido com títulos de várias ordens.

Matilde Fieschi

O mais recente foi Prémio Nelson Mandela 2024, atribuído pela ProPública pelo seu longo trabalho em prol dos mais vulneráveis, bem como a sua intervenção em defesa dos direitos dos cidadãos.

Os dez mil euros que recebeu desse prémio foram atribuídos por ele à Associação de Apoio ao Recluso, ao SOS Racismo e à comissão de trabalhadores do supermercado Dia. António Garcia Pereira tem revelado que continua a desejar uma revolução proletária e acabar com a extrema direita.

Uma das suas recentes vitórias foi a condenação do ativista neonazi Mário Machado com pena de prisão efectiva de 2 anos e 10 meses de prisão efetiva por incitamento ao ódio nas redes sociais contra mulheres de esquerda, designadamente Renata Cambra.

Matilde Fieschi

Mais recentemente Garcia Pereira apresentou uma queixa crime ao Ministério Público a pedir a extinção do Chega por violação da Constituição, ao alegar ser um partido neofacista, com “expressões públicas de um padrão reiterado de discriminação” xenófoba e racista. O Ministério Público permanece em silêncio sobre o caso.

A sua luta anti fascista vem do Antigo Regime, nas lutas estudantis. E terá sido a revolta pelo assassinato do jovem estudante Ribeiro Santos, ocorrido no dia 12 de outubro de 1972, que o impeliu para uma longa vida política que durou até 2015. Período em que chegou mesmo a ser candidato à Presidência da República.

Matilde Fieschi

Que críticas faz atualmente à direita no poder e à esquerda que lhe faz oposição?

E o que espera para o futuro do país e do mundo?

Detalhes aparte, fora da biografia oficial: Garcia Pereira foi jogador de futebol e andebol durante muitos anos. E praticou mergulho de apneia e caça submarina durante cerca de 35 anos, entre os 11 e os 46.

Matilde Fieschi

O amor pelo mar ganhou do avô Pestana, um advogado, natural da ilha da Madeira, firme republicano, penúltimo ministro das Finanças antes de Salazar, revolucionário, que foi preso, deportado, e colocado no degredo que representava na altura o Porto Santo.

Um homem de uma cultura universalista, que tanto percebia de política, como de pesca e agricultura, e que lutou sempre pela liberdade. Uma das grandes inspirações de Garcia Pereira.

Matilde Fieschi

Nesta nova temporada, o genérico é agora assinado por A Garota Não. Os retratos são da autoria de Matilde Fieschi. E a sonoplastia deste podcast é de Francisco Marujo.

A segunda parte desta conversa fica disponível na manhã deste sábado.



SIC Noticias

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