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Na sexta-feira, 20 minutos antes de o Irão anunciar a abertura do estreito de Ormuz na sequência do cessar-fogo acordado com os Estados Unidos, um conjunto de investidores apostou cerca de 760 milhões de dólares na queda do preço do petróleo. Esta foi mais uma a juntar-se às recentes operações de grande volume que têm estado bem sincronizadas com as vésperas de anúncios importantes no contexto da guerra no Médio Oriente e que levantam suspeitas de que poderá estar a acontecer abuso de informação privilegiada.
Julia Demaree Nikhinson
A BBC analisou um conjunto de dados relativos ao volume de transações em vários mercados financeiros. Nas flutuações, o jornal britânico encontrou um denominador comum: os picos de tráfego registados nas ações apenas algumas horas, ou até minutos, antes de uma publicação ou de declarações de Donald Trump.
Alguns especialistas consideram que o cenário apresenta todas as características de abuso de informação privilegiada (conhecido como “insider trading“, em inglês), no qual as apostas são feitas tendo por base informações que não são do conhecimento nem estão ao alcance do público em geral.
Porém, há quem advogue que as situações aconteceram, porque os investidores tornaram-se mais hábeis a antecipar as declarações do Presidente norte-americano e a prever as suas repercussões nos mercados.
Aposta mais recente de 760 milhões de dólares na queda do petróleo
Na sexta-feira, registou-se mais uma aposta avultada no petróleo que levantou dúvidas pela antecipação de um facto inesperado.
Entre as 12:24 e as 12:25 GMT (13:24 e 13:25 de Lisboa), os investidores venderam um total de 7.990 lotes de contratos futuros de petróleo Brent no valor de 760 milhões de dólares, de acordo com dados da LSEG, citados pela Reuters.
Minutos depois, o anúncio fez com que o preço do petróleo bruto caísse até 11% nesse mesmo dia.
Momentos em que as apostas anteciparam declarações de Donald Trump
Para além deste, a BBC destacou outros exemplos mais significativos deste padrão.
Trump disse que a guerra estava “praticamente concluída”: 47 minutos antes, o disparo nas apostas
A 9 de março, com nove dias de guerra no Médio Oriente até então, Donald Trump declarou à CBS News que considerava que a guerra contra o Irão estava “praticamente concluída” e que a operação norte-americana estava “muito adiantada” tendo em conta o prazo estabelecido inicialmente.
O presidente Donald Trump, após concluir o seu discurso sobre a guerra com o Irão no Cross Hall da Casa Branca, a 1 de abril de 2026, em Washington
Alex Brandon
A entrevista foi publicada às 20:16 de Lisboa. Porém, os dados de mercado mostram que houve um grande aumento de apostas na queda do petróleo 47 minutos antes, às 19:29. Depois das declarações, o petróleo caiu cerca de 25% e os investidores somaram vários milhões de dólares graças ao ‘palpite’ certeiro.
Reação após o anúncio das “conversações produtivas” com o Irão
A declaração, considerada inesperada por vários especialistas, não foi assim tão imprevisível para alguns investidores, tendo em conta que 14 minutos antes da publicação do Presidente norte-americano, registou-se um número elevado de apostas sobre o preço do petróleo nos EUA e também sobre os contratos futuros de Brent. Cerca de 500 milhões de dólares foram vendidos em futuros de petróleo e o preço do crude caiu 15%.
Mais recentemente, a Reuters avançou que, a 7 de abril, foram realizadas apostas no valor de cerca de 950 milhões de dólares poucas horas antes de os EUA e o Irão anunciarem um cessar-fogo de duas semanas.
Houve quem ‘adivinhasse’ início da guerra e cessar-fogo no Irão
Antes, em fevereiro, foram criadas seis contas na plataforma de jogo digital Polymarket, de acordo com o site de análise de blockchain Bubblemaps.
As seis contas apostaram em uníssono que um ataque dos EUA ao Irão iria acontecer até 28 de fevereiro, dia em que, precisamente, os ataques de Israel e dos EUA foram confirmados por Trump. Graças a isto, as contas ganharam, no total, 1,2 milhões de dólares.
Desde então, cinco desses seis utilizadores não fizeram mais apostas, mas a atividade recente de uma das contas mostra que esta ganhou 163 mil dólares ao apostar corretamente num cessar-fogo entre os EUA e o Irão até 7 de abril, anunciado por Washington e Teerão nesse dia.
De acordo com a Reuters, a Comissão de Negociação de Futuros de Mercadorias dos EUA está a investigar uma série de transações em contratos de futuros de petróleo, incluindo as realizadas a 23 de março e a 7 de abril, que foram efetuadas pouco antes de importantes mudanças políticas por parte de Trump relacionadas com a guerra no Irão, afirmou na quarta-feira uma fonte a par do assunto.
Previsões aconteciam antes da guerra
Para além destes investimentos, determinadas operações nos mercados financeiros foram realizadas antes do início da guerra no Médio Oriente e partilham o mesmo padrão.
A 2 de abril de 2025, Trump anunciou uma série de tarifas aduaneiras sobre os principais parceiros comerciais dos Estados Unidos. Os mercados financeiros e as bolsas de todo o mundo entraram em queda.
Um semana depois, quando Trump anunciou uma “pausa” de 90 dias nas tarifas para todos os países, exceto para a China, os mercados voltaram a disparar. Mais uma vez, um padrão de negociação invulgar precedeu os eventos, com um número elevado de apostas realizadas antes do anúncio.
A mesma coisa aconteceu ainda antes, nesse mesmo ano, em dezembro. Um utilizador criou uma conta chamada “Burdensome-Mixna” na plataforma Polymarket. A 30 de dezembro, fez a primeira aposta: a de que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, deixaria o cargo até ao final de janeiro de 2026.
Eduardo Munoz
Entre 30 de dezembro e 2 de janeiro, a conta apostou um total de 32.500 dólares nessa posição. A 3 de janeiro, quando Maduro foi detido pelas forças especiais dos EUA e destituído no dia seguinte, o utilizador ganhou 436 mil dólares. Pouco tempo depois, a conta alterou o nome de utilizador e não realizou mais nenhuma aposta desde então.
Abuso de informação privilegiada
Desde a aprovação da Lei dos Valores Mobiliários, em 1933, o abuso de informação privilegiada é ilegal para a maioria dos norte-americanos. Em 2012, a lei foi alargada aos funcionários do Governo.
À BBC, o professor especializado em direito da regulamentação financeira na ESSEC Business School, Paul Oudin, afirma que as regras são difíceis de aplicar e que “há uma forte probabilidade” de que ninguém seja processado.
“As autoridades financeiras não irão instaurar um processo se não conseguirem identificar quem é a fonte da informação”, diz o especialista.
Sabe-se que a Casa Branca enviou recentemente aos funcionários um memorando interno, datado de 24 de março, avisando-os de que estão proibidos de jogar em aplicações de apostas ou mercados financeiros para lucrar com a guerra no Irão, utilizando informação privilegiada.
Em resposta à publicação do memorando no Wall Street Journal e na agência Bloomberg, o porta-voz da Casa Branca Davis Ingle insistiu que o Presidente Trump “deixou muito claro” que nem os membros do Congresso, nem os funcionários da Casa Branca podem usar informação privilegiada para seu benefício financeiro.
