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Novos medicamentos para doença de Alzheimer têm benefícios “demasiado reduzidos”, conclui estudo independente


Saúde e Bem-estar

Uma revisão independente conclui que os novos medicamentos para a doença de Alzheimer conseguem abrandar a progressão da doença, mas o efeito é demasiado reduzido para ter impacto significativo na vida dos doentes. As conclusões estão a gerar forte controvérsia na comunidade científica.

Novos medicamentos para doença de Alzheimer têm benefícios "demasiado reduzidos", conclui estudo independente

Peter Dazeley

Uma análise da organização independente Cochrane concluiu que os novos medicamentos para a doença de Alzheimer donanemab e lecanemab – conseguem atrasar a progressão da doença, mas o benefício clínico é reduzido.

Os investigadores analisaram 17 estudos, envolvendo 20.342 voluntários, e concluíram que o efeito dos fármacos está “muito abaixo” do necessário para fazer uma diferença significativa na vida dos doentes com demência.

Como funcionam os tratamentos

Após décadas de insucesso na investigação, dois medicamentos abriram um novo capítulo: o Kisunla (donanemab), da Eli Lilly, e o Leqembi (lecanemab), da Biogen e Eisai. São os primeiros a mostrar efeitos na redução dos sintomas da doença.

Atuam sobre a beta-amiloide, uma proteína que se acumula entre as células cerebrais e está associada à doença. Estes fármacos são anticorpos desenvolvidos para identificar e remover essas placas do cérebro.

Riscos, custos e limitações

Apesar disso, os medicamentos apresentam limitações relevantes. Podem provocar efeitos secundários, como inchaço e hemorragias cerebrais, exigem administração regular, de duas em duas ou de quatro em quatro semanas, e têm custos elevados.

No setor privado britânico, um tratamento de 18 meses pode atingir cerca de 90 mil libras, incluindo acompanhamento médico, tornando-o inacessível para a maioria dos doentes.

Um dos autores da revisão, o neurologista Edo Richard do Centro Médico da Universidade Radboud, na Holanda, afirmou, em declarações à BBC, que não recomendaria estes tratamentos aos seus doentes.

“Acho que provavelmente não beneficiarão destes medicamentos e são um fardo para vocês e para as vossas famílias. Acho extremamente importante sermos honestos com os nossos doentes sobre o que podem esperar. Preocupo-me sempre em evitar criar falsas esperanças”.

O especialista defende que outras abordagens, como o combate à inflamação cerebral, devem continuar a ser exploradas.

Comunidade científica dividida

No entanto, as conclusões da própria revisão estão a gerar contestação entre especialistas. Críticos argumentam que a análise agrupa medicamentos muito diferentes, incluindo fármacos mais antigos e menos eficazes, o que pode distorcer os resultados.

O neurocientista Bart De Strooper, do Instituto de Investigação em Demência do Reino Unido na UCL, afirmou que a revisão “não esclarece as provas, mas obscurece-as”, defendendo que os tratamentos mais recentes apresentam benefícios “modestos, mas reais”.

Também Richard Oakley, da Alzheimer’s Society, sublinhou que os resultados devem ser interpretados com cautela e sem desvalorizar décadas de investigação.

No Reino Unido, os medicamentos não são financiados pelo sistema público. O National Institute for Health and Care Excellence já os rejeitou anteriormente, mas está a reavaliar os dados, incluindo o impacto nos cuidadores.

Situação em Portugal

O que é a doença de Alzheimer?

A doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência, que resulta numa perda lenta e progressiva de memória, pensamento e capacidade de aprender. Os sintomas incluem desorientação, alterações de personalidade e dificuldades em tomar decisões.

No cérebro, a doença começa com a acumulação da proteína beta-amiloide, seguida da formação de emaranhados da proteína Tau, tóxicos para os neurónios.

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