Portugal

"O assédio moral destruiu-me, levou tudo de mim"

“Foi tortura porque levou tudo de mim. Foi apagando quem eu era. Basta um tom de voz parecido ou um ‘email’ que comece da mesma forma para o meu coração disparar, num ataque de pânico. Gerou-se um ciclo que me destruiu”, explicou a investigadora de 29 anos, em entrevista à Lusa.

A jovem ficou sem bolsa, com o doutoramento por concluir, empregou-se numa fábrica têxtil que “paga o salário mínimo e cujo requisito é o 12.º ano” e nunca denunciou – por medo, porque lhe disseram que o professor “era intocável”, porque duvidou e durante muito tempo se culpou, sem saber que nome dar às pressões.

“Diz-se que é exigência, que ‘ela não aguentou’. O assédio moral não é uma coisa óbvia. Eu estava com ataques de pânico, não conseguia dormir nem comer direito e mesmo assim perguntava a mim mesma se não estaria a exagerar”, desabafa.

A dúvida está presente “o tempo todo”.

“Ficamos a duvidar da nossa sanidade. Perguntava-me se interpretei mal, se estava a ser demasiado sensível”, relata.

“Muitas vezes, é difícil para as vítimas perceberem o que está a acontecer, pois há comportamentos que podem ser confundidos com discussões profissionais ou incompetência, até se perceber que é uma perseguição”, justifica Bernardo Coelho, professor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa e investigador do Centro Interdisciplinar de Estudos de Género (CIEG), em declarações à Lusa.

O assédio moral “é algo que se vai infiltrando na vida das pessoas e elas só dão conta quando já estão profundamente perturbadas”, acrescenta.

“São fenómenos minoritários [o assédio sexual e moral], mas existem e são altamente prejudiciais e penalizadores das pessoas que são objeto destas práticas”, assegura Anália Torres, socióloga e professora catedrática, que em 2015 coordenou o estudo “Assédio Sexual e Moral no Local de Trabalho”, o primeiro a abordar o assédio moral em Portugal.

Os resultados do estudo, divulgados há 10 anos, acabariam por contribuir para uma revisão da lei laboral em 2017: o Código de Trabalho passou a contemplar a punição do assédio como contraordenação muito grave, entre outras alterações.

No inquérito, o assédio sexual é referido por 12,6% das pessoas inquiridas, sendo 14,4% das mulheres e 8,6% dos homens. O assédio moral é referido por 16,5% das pessoas inquiridas, sendo 16,7% das mulheres e 15,9% dos homens.

As situações de assédio moral mais frequentes são a intimidação e a perseguição profissional, de acordo com o estudo.

Sofia relata que o orientador “não era mau o tempo todo”, mas existiam “múltiplas agressões”, desde o tom de voz a olhares, respostas adiadas, prazos da tese por cumprir, “dinâmicas de poder difíceis de explicar” e promessas para liderar projetos de investigação.

São “pequenas práticas que, isoladas, podem não parecer nada mas que, em conjunto ou ao longo do tempo, têm um enorme efeito sobre as pessoas”, observa Bernardo Coelho.

Maria (nome fictício), gestora de 42 anos, fala em “microagressões” por parte de diretor que não a avisava de “reuniões onde era suposto estar” e era generoso em “respostas passivo-agressivas” que a deixavam a sentir-se “servil e menorizada”.

“Tenho a sensação de que tinha gozo em fazer-me sentir excluída. Reportei aos Recursos Humanos, mas nada foi feito”, afirma.

Carolina (nome fictício), de 48 anos, executiva sentiu-se injustiçada, achou que o assédio não aconteceria a uma executiva sénior, apresentou queixa nos Recursos Humanos: “Disseram que não era assédio sexual, violência nem racismo e que não ia contra as regras ou política da empresa”.

Recorda um processo “muito subtil” após ser contratada por uma multinacional para implementar uma “transformação financeira” e ser “boicotada” por três colegas.

“Diziam que as coisas que eu propunha eram muito complicadas, faziam reuniões sem me avisar, fizeram de tudo para me boicotar, até que já não conseguia fazer o meu trabalho”, recorda.

Há “um padrão de continuidade” no assédio, diz Maria João Faustino, investigadora doutorada em Psicologia, assinalando que uma prática “bastante comum é a imprevisibilidade das condutas”.

“É tirar o tapete: atribuir coisas e depois dizer que não era para fazer, ou que nada daquilo faz sentido. Dar ordens e depois contradizê-las. Trata-se de jogar com a imprevisibilidade e a não segurança no trabalho”, detalha.

A motivação dos assediadores? “O exercício do poder”, garante.

Sílvia Roque, especialista em estudos sobre violência e investigadora na Universidade de Évora, diz que o assédio moral, como o sexual, “estão no mesmo quadro de exercício da violência e abuso de poder”.

Apesar de “muito naturalizado e invisibilizado”, o assédio moral “produz consequências muito danosas: na autoestima, na ansiedade, no trajeto laboral”, assinala Maria João Faustino.

Carolina deixou o cargo que ocupava devido à pressão psicológica, passou a ocupar uma posição menos vantajosa financeiramente: “O meu bem-estar é mais importante”, justifica.

Para Maria, o assédio moral foi “a principal razão” para sair da empresa. “Pensei: não aguento mais que me tratem assim”, lembra.

Com um percurso escolar preenchido com diplomas de mérito e uma tese de mestrado com 20 valores, Sofia admite a “frustração e a mágoa”.

“Sempre dei o melhor. Agora, penso que podia ter estado a juntar dinheiro ou a aproveitar a vida num emprego assim [na fábrica], em vez de ter gastado tudo em propinas, livros ou equipamentos para pesquisa que hoje não me servem de nada”, resume.

Sofia continua a “mandar currículos” mas não é fácil recuperar: “Este quase nevoeiro, a falta de capacidade de concentração, tudo continua. Ele conseguiu destruir completamente a minha capacidade de me valorizar”.

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