Texto de Maria Moreno, médica psiquiatra. Em vésperas do Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho, que se assinala a 28 de abril, a especialista apresenta uma reflexão sobre o burnout, descrito pela primeira vez nos anos 70. O século XXI amplificou o problema com o teletrabalho, horários flexíveis e constante conectividade, tornando difícil desligar do trabalho e recuperar adequadamente.

Carol Yepes
O burnout não nasceu com as start-ups nem com o teletrabalho nem com a cultura das notificações. Já existia. Sempre existiu.
Corriam os anos 70 quando foi publicado o primeiro artigo sobre burnout. O termo pegou e veio tomar o lugar daquilo que durante décadas se apelidou corriqueiramente como o “esgotamento nervoso”. A expressão antiga ainda se ouve – muitas vezes dita com alguma leveza.
O nome mudou. A forma de descrever também. O fenómeno, esse, manteve-se. O que o século XXI fez foi amplificá-lo.
Hoje trabalhamos mais horas, com menos fronteiras e maior exigência de resposta. Ganhámos o teletrabalho e perdemos a nossa casa. Ganhámos horário flexível e perdemos o final de dia e os fins de semana em família. Ganhámos acesso a qualquer hora e de qualquer lugar e perdemos a possibilidade de desligar. Ganhámos visibilidade e perdemos privacidade. Ganhámos mais oportunidades e metas bem estabelecidas e perdemos a capacidade de dizer “não” e a margem para falhar.
Nunca se desliga – reparamos em mais uma notificação a cair e, eventualmente, adia-se – ou não. E, no meio disto, fomos normalizando sinais que antes nos fariam parar: o cansaço constante, a irritabilidade, a dificuldade em concentrar, a sensação de estar sempre “em falta”.
Não é só trabalhar muito. É perder a capacidade de recuperar. E pior – a capacidade de parar.
Olga Pankova
O burnout é uma resposta prolongada ao stress permanente no contexto laboral. Não surge de um dia para o outro. Instala-se de forma progressiva, muitas vezes silenciosa. Eu diria mais – a maioria das vezes, silenciosa.
Começa com mais esforço, mais entrega, mais disponibilidade. E, durante muito tempo, até é valorizado. “És tão dedicado”. “Estás sempre disponível”. O padrão aparece e é reforçado.
E quando os primeiros sinais aparecem – cansaço persistente, irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações do sono – são frequentemente ignorados ou minimizados. “É só uma fase”. “Isso com as férias passa.”
O que sabemos hoje, e não sabíamos com tanta clareza há 50 anos, é que o stress crónico tem um impacto real no organismo e no nosso cérebro. O sistema de resposta ao stress mantém-se ativado e a capacidade de regulação emocional e cognitiva vai diminuindo. E, principalmente, o cérebro adapta-se e torna-se dependente deste modus operandi.
Mas, apesar de toda a evolução científica, há algo que não mudou. Continuamos a interpretar o burnout como uma falha individual. Falta de organização. Falta de limites. Falta de resiliência. E isso atrasa tudo.
O burnout não é uma moda. Não é um exagero moderno. Também não é apenas uma consequência inevitável de trabalhar muito. É uma condição reconhecida, com impacto funcional real, que resulta da interacção entre o indivíduo, o contexto em que está inserido e este novo modo de ser e estar, tão presente no século XXI.
O nome pode ter mudado. O problema permanece o mesmo.
