As declarações proferidas por Rupert Symington, no podcast da Revista de Vinhos, sobre a Casa do Douro, são, não apenas profundamente injustas como revelam um preocupante desconhecimento da história, do papel e da realidade social da Região Demarcada do Douro.
Dizer que a Casa do Douro “não serve para nada” e insinuar que é apenas um instrumento para “encher bolsos com dinheiro que não é de quem lá está” não é uma opinião técnica nem uma crítica construtiva. É um ataque gratuito a uma instituição pública, representativa de milhares de viticultores, muitos deles pequenos produtores, envelhecidos, fragilizados economicamente e sem outra voz organizada no sistema.
Importa ainda sublinhar que este tipo de declarações não é apenas um ataque à Casa do
Douro enquanto instituição, mas também a pessoas concretas que o autor das afirmações claramente não conhece. Pessoas que, diariamente, dão o seu tempo, o seu conhecimento e a sua experiência pro bono, muitas vezes em prejuízo da sua vida pessoal e profissional, para manter viva uma instituição ao serviço da Região Demarcada do Douro e dos seus viticultores. Não trabalham para empresas, não defendem interesses privados nem retiram qualquer benefício financeiro dessa dedicação. Trabalham, sim, numa lógica de serviço público, de compromisso com o território e de responsabilidade coletiva, num contexto onde é cada vez mais difícil encontrar quem esteja disponível para assumir funções exigentes sem retorno económico. A Região Demarcada do Douro não precisa de pirómanos!
Reduzir esta realidade a uma visão maniqueista, onde uns são apresentados como eficientes por serem empresas e outros como inúteis por serem instituições coletivas, é intelectualmente pobre, socialmente irresponsável e profundamente injusto para quem, longe dos holofotes, continua a sustentar o Douro no dia a dia.
Grave ainda é a forma ligeira como se fala de ativos que pertencem à região. Referir-se a dezenas de milhares de pipas de vinho como se fossem um incómodo administrativo, “que ninguém sabe o que fazer”, é ignorar deliberadamente:
● O contexto histórico em que esses vinhos foram produzidos,
● As responsabilidades do próprio Estado na sua gestão,
● O potencial estratégico que esses ativos sempre representaram para estabilizar o
setor e proteger rendimento na produção.
Esta forma de intervir no espaço público revela um desequilíbrio que importa denunciar: quem sempre teve acesso privilegiado ao mercado, ao capital, à influência política e à capacidade de escoamento internacional sente-se confortável para desvalorizar instituições que existem precisamente para equilibrar esse poder.
A Casa do Douro não nasceu para servir interesses privados nem grandes grupos económicos.
Nasceu para organizar a produção, defender o rendimento dos viticultores e garantir equilíbrio num sistema historicamente assimétrico. Se ao longo das décadas foi enfraquecida, capturada ou instrumentalizada, isso diz mais sobre as opções políticas do país e sobre quem beneficiou desse enfraquecimento do que sobre a sua razão de existir.
É fácil atacar a Casa do Douro a partir de gabinetes confortáveis, com acesso a mercados globais e margens protegidas. Difícil é enfrentar a realidade de um território onde
● O custo de produção aumenta,
● O preço da uva não acompanha,
● Os viticultores são sistematicamente empurrados para fora da equação.
O Douro não precisa de comentários arrogantes, de simplificações perigosas nem de intervenções de autêntica piromania.
Precisa de responsabilidade, memória histórica e respeito por quem mantém a região viva.
Desvalorizar a Casa do Douro é desvalorizar os viticultores.
Face à gravidade das afirmações proferidas, ao seu caráter ofensivo e à imputação genérica de comportamentos desonestos, a Casa do Douro não pode nem irá permanecer em silêncio.
Estão em causa declarações que ultrapassam largamente o âmbito da opinião ou da crítica legítima, configurando uma ofensa à honorabilidade, ao bom nome e à reputação de uma instituição pública com quase nove décadas de história, bem como das pessoas que a integram e que nela exercem funções de forma gratuita e desinteressada. Nestes termos, e em defesa da dignidade institucional e pessoal, a Casa do Douro acionará os meios legais ao seu dispor, incluindo a apresentação de queixa-crime por difamação, para que os factos sejam devidamente apreciados pelas instâncias competentes e para que sejam apuradas as respetivas responsabilidades.
Fonte: Casa do Douro
