Cultura

Sobrevivente de Chernobyl: "É uma morte em prestações"


Chernobyl

Petro Hurin foi um dos centenas de milhares de “liquidadores” mobilizados para limpar Chernobyl após o acidente de 26 de abril de 1986. Trabalhou durante dias a carregar betão com chumbo para construir o sarcófago, exposto à radiação. A sua saúde deteriorou-se desde então.

Loading…

Petro Hurin diz que a sua saúde nunca mais foi a mesma desde que, há 40 anos, foi enviado para limpar o local de Chernobyl, após o pior acidente nuclear do mundo.

Foi um dos centenas de milhares de “liquidadores” mobilizados para as operações de limpeza depois da explosão no reator quatro da central nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, a 26 de abril de 1986. O desastre libertou nuvens de material radioativo que se espalharam por grande parte da Europa.

Trinta e um trabalhadores da central e bombeiros morreram nos dias imediatamente a seguir, na maioria devido a síndrome aguda da radiação. Milhares de outras pessoas morreram entretanto de doenças associadas à radiação, como cancro, embora o número total de vítimas e os efeitos a longo prazo continuem indeterminados.

Na altura, Petro Hurin trabalhava numa empresa que fornecia escavadoras e veículos de construção, que o enviou para a zona de exclusão de Chernobyl em junho de 1986. Dos 40 trabalhadores enviados pela empresa, apenas cinco estão vivos hoje, segundo disse.

“(Os primeiros a chegar a Chernobyl) espalharam-se por diferentes regiões e estão a morrer silenciosamente, a morrer… Poucos restam. Digo-vos: nenhuma pessoa de Chernobyl está de boa saúde. É uma morte em prestações. Já não resta quase ninguém”, disse à Reuters.

As autoridades soviéticas procuraram ocultar a dimensão do desastre, recusando cancelar o desfile de 1 de maio em Kiev, a cerca de 100 quilómetros a sul. O atual governo ucraniano tem sublinhado a forma como as autoridades soviéticas geriram mal o acidente e tentaram encobrir o desastre.

Petro Hurin contou que alguns colegas apresentaram atestados médicos para evitar ir para Chernobyl, mas ele decidiu ajudar.

“Percebi que, por mais pequena que fosse a minha contribuição, estava a fazer a minha parte para ajudar a domar esta besta atómica, controlá-la. E a radiação é exatamente isso. É um inimigo invisível que afeta todos os seres vivos”.

A trabalhar em turnos de 12 horas, utilizava uma escavadora para carregar betão seco misturado com chumbo, transportado por barcaça fluvial, para camiões que o levavam até ao reator, onde era usado na construção de um enorme sarcófago destinado a conter a radiação.

“O pó era terrível. Trabalhava-se meia hora com um respirador e este acabava por ficar castanho, parecia uma cebola, por causa da libertação de iodo. E trabalhávamos assim durante 12 horas”.

Ao fim de quatro dias, começou a sentir sintomas graves, como dores de cabeça, dores no peito, hemorragias e um sabor metálico na garganta. Foi tratado por médicos, mas após mais um turno mal conseguia andar. Chegou a temer ter “um ou dois dias” de vida.

“No hospital, os médicos fizeram análises ao sangue. Furaram-me todos os dedos e saiu um líquido claro, mas não havia sangue. É verdade. E então os médicos deram o veredito: eu tinha de ser retirado da zona de Chernobyl imediatamente”.

Os médicos soviéticos recusaram diagnosticar síndrome de radiação, algo que, segundo disse, não era permitido na altura. Em vez disso, disseram-lhe que tinha distonia vegetativo-vascular, uma perturbação do sistema nervoso frequentemente associada ao stress.

Antes do desastre, Petro Hurin nunca tinha metido baixa médica, mas depois passou cerca de sete meses a circular entre hospitais para receber tratamento, incluindo uma transfusão de sangue.

Diz que lhe foram diagnosticadas anemia, frequentemente associada à exposição à radiação, angina, pancreatite e várias outras doenças.

Ainda assim, para os padrões do seu país, tem uma vida longa. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a esperança média de vida dos homens na Ucrânia era de 66 anos em 2021, tendo diminuído durante a pandemia de COVID-19.

Agora reformado, vive com a mulher, Olha, na região de Cherkasy, no centro da Ucrânia. Apesar dos problemas de saúde, continua a tocar bayan, um tipo de acordeão, e a escrever canções e poemas.

Diz que está a lutar para ter acesso a uma pensão especial por invalidez destinada aos “liquidadores” do desastre nuclear.



SIC Noticias

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *