O processo de sucessão de António Guterres foi oficialmente iniciado em novembro do ano passado. Entre as várias fases que levarão à eleição do novo secretário-geral da ONU, acontece esta terça-feira a audição dos candidatos pelos Estados-membros. Aos três nomes já conhecidos no final de 2025, juntou-se em março mais um. São agora duas mulheres e dois homens que alinham na corrida à liderança das Nações Unidas.
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A ex-presidente chilena, Michelle Bachelet, é a primeira candidata a ser ouvida, esta manhã, em Nova Iorque, seguindo-se o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Rafael Mariano Grossi, na tarde do mesmo dia. Para quarta-feira de manhã está prevista a audição da ex-vice-presidente da Costa Rica, Rebeca Grynspan, e o ex-presidente senegalês, Macky Sall, deverá ser ouvido no mesmo dia, à tarde.
Cada candidato teve de ser oficialmente indicado por um Estado ou grupo de Estados, mas não necessariamente pelo seu país de origem. Esta terça-feira, terão a oportunidade de apresentar a sua visão para a organização, responder às perguntas dos Estados-membros e interagir com entidades da sociedade civil.
Sem mencionar regiões específicas, a carta abriu caminho a uma disputa que, pela primeira vez em anos, conta com uma forte concentração de candidatos latino-americanos, que se posicionam como possíveis sucessores de António Guterres.
Novo mandato começa no início do próximo ano
O sucessor do antigo primeiro-ministro, António Guterres, vai iniciar a 1 de janeiro de 2027 o novo mandato de cinco anos. Vários países defendem que uma mulher ocupe o cargo pela primeira vez nos 80 anos de história da ONU, mas a última palavra cabe aos 15 membros do Conselho de Segurança, que devem iniciar o processo de seleção até ao final de julho.
É apenas por recomendação do Conselho de Segurança que a Assembleia-Geral pode eleger o secretário-geral para um período de cinco anos, renovável por mais um mandato. Este órgão de liderança da ONU realizará votações secretas até chegar a um consenso. Por fim, os cinco membros permanentes do Conselho com poder de veto (Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França) devem concordar com um candidato.
António Guterres assumiu a liderança da ONU em janeiro de 2017, tendo sido reconduzido para um segundo mandato, que termina no final de 2026.
Breve perfil dos candidatos a secretário-geral da ONU
Rafael Grossi (Argentina)
Diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) é, até agora, uma das candidaturas mais visíveis. Diplomata experiente, com forte reputação técnica e política, Rafael Mariano Grossi tem referido publicamente a sua disponibilidade para liderar a ONU e centrar o mandato na paz, segurança e reforço do multilateralismo.
É licenciado em Ciências Políticas, tem um mestrado em Relações Internacionais e um doutoramento em História e Política Internacional.
Grossi, de 65 anos, recusou renunciar ao cargo na AIEA enquanto concorre à liderança da ONU. A decisão contraria uma resolução da Assembleia-Geral que pedia aos funcionários das Nações Unidas que “considerassem” suspender funções durante a campanha, a fim de evitar conflitos de interesse.
Rafael Grossi, Diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica
Elisabeth Mandl
Michelle Bachelet (Chile)
Antiga Presidente do Chile e ex-Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, é um dos nomes mais fortes do lado sul-americano. O seu passado político e o trabalho em direitos humanos conferem-lhe grande potencial para a liderança das Nações Unidas.
A candidatura de Bachelet, de 74 anos, tem vindo a ser relacionada com um possível impulso para que, pela primeira vez, a ONU seja liderada por uma mulher. Antes de ser Presidente, foi ministra da Defesa e da Saúde. Foi também a primeira diretora-executiva da ONU Mulheres, a agência da ONU que promove igualdade de género, autonomia e os direitos das mulheres.
É formada em Medicina, com especialização em Cirurgia, Pediatria e Saúde Pública. Também estudou estratégia militar na Academia Nacional de Estratégia e Política do Chile e no Colégio Interamericano de Defesa, nos Estados Unidos.
JP Yim
Rebeca Grynspan (Costa Rica)
Tem 70 anos e é um dos nomes que mais agrada aos países que defendem maior equilíbrio geográfico e de género. Tem um sólido percurso na diplomacia da ONU, política económica e cooperação multilateral a nível global.
Licenciada pela Universidade da Costa Rica em Economia, área em que tirou o mestrado na Universidade de Sussex, no Reino Unido. Antes de liderar a UNCTAD, ocupou vários altos cargos no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e foi nomeada subsecretária-geral da ONU em 2010.
Rebeca Grynspan recebeu em 2024 o Prémio de Negociadora do Ano de Doha por liderar os esforços da ONU para restaurar as rotas comerciais do Mar Negro, após a guerra na Ucrânia.
Europa Press News
No início de março, o ex-presidente senegalês Macky Sall, de 64 anos, entrou na corrida para secretário-geral por nomeação do Burundi. Esta é considerada a candidatura mais polémica em competição. Não foi apresentada pelo Senegal, país onde Sall é acusado pelos novos dirigentes de ter ocultado dados económicos importantes, como a dívida pública.
Governou o Senegal de 2012 a 2024 e é visto pelos seus apoiantes como um candidato capaz de conduzir negociações multilaterais em nome do continente, mas os que contestam esta candidatura criticam o seu regime pela dura repressão aos protestos da oposição.
A União Africana (UA) recusou apoiar esta candidatura, depois de ter sido rejeitada por 20 dos 55. A falta de apoio consensual em África poderá enfraquecer a influência do continente no processo de seleção da ONU, onde o apoio regional é importante.
Sylvain Cherkaoui
