Portugal

Três meses depois da tempestade Praia da Vieira espera a bonança que tarda

“Até hoje não recebemos nem um cêntimo, nem de entidades, nem do seguro”, lamenta Bruno Gomes, proprietário do Restaurante Flor do Liz, um dos estabelecimentos que a tempestade Kristin devastou na madrugada de 28 de janeiro.

A fúria do vento destruiu nessa noite o telhado, os vidros, a esplanada, a maquinaria e todos os produtos em ‘stock’ no estabelecimento, que esteve 20 dias sem luz elétrica.

Os prejuízos, contabiliza Bruno Gomes, “rondam os 150 mil euros”, valor que, nestes três meses, já teve de investir para pôr o restaurante “quase a 100%”, tendo reaberto no dia 18 de abril.

Os anunciados apoios é que “nem vê-los”, já que, “nem o lay-off dos oito trabalhadores pagaram e teve de ser a empresa a suportar os ordenados, durante três meses, com o estabelecimento fechado”, conta, com um encolher de ombros de resignação de quem já só espera “que o verão traga pessoas à praia e que a câmara [da Marinha Grande] perceba que é preciso uma grande intervenção para atrair pessoas, porque esta terra vive do turismo”.

Se dúvidas houvesse, bastava olhar em volta, para uma avenida “onde não há luz à noite, porque nenhum candeeiro trabalha desde a tempestade”, ou para o restaurante próximo, o Lismar, ainda em obras e longe de poder reabrir ao público.

Ao lado, no Restaurante Mirante, as janelas foram tapadas com placas de madeira e, numa das que escapou à destruição, foi colocado um anúncio de venda. O dono, Nelson Ribeiro, anda “desanimado” desde a noite em que, assustado, disse à mulher “veste o robe e vem para baixo”, para se abrigarem no ‘hall’ das casas de banho do estabelecimento, na noite em que “o barulho só fazia lembrar o tremor de terra de 1969”.

O edifício onde vive, por cima do restaurante, tremeu, ficou com fendas nas paredes, janelas partidas, uma torre destruída, uma escada caída. Os estragos, que rondam os 80 mil euros, ainda lá estão todos, três meses depois.

“A única ajuda foi um grupo de escuteiros de Lisboa que puseram a primeira das 11 lonas no terraço levou, porque, de resto, ajudas nenhumas, só entidades a desajudar”, queixa-se, ressentido com a recusa da câmara e da junta de freguesia em ceder uma grua e da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), que “está a dificultar a autorização para repor a esplanada” em frente ao estabelecimento que marca o ponto em que o solo está no Domínio Público Marítimo.

Cansado, pôs a casa à venda, sem disposição para “recomeçar tudo outra vez”. Mas, depois de conseguir um empreiteiro para fazer a obra, já admite “reabrir o restaurante, talvez lá para o final de maio, se não vender. Logo se vê”, diz, com o mesmo encolher de ombros resignado do vizinho Bruno.

Menos resignado, Mauro Freitas reabriu o “Cardume” um mês depois da tempestade, e lá vai levando o negócio, “que só vai correndo mais ou menos porque muitos ainda estão fechados”. Quanto a apoios, a sua sorte não difere da dos vizinhos: “o seguro só quer pagar um décimo dos prejuízos” e o “lay-off” do funcionário é ele “que o paga todos os meses”. Ajudas, conta, “só mesmo de dois fornecedores [uma marca de café e outra de bebidas] que vão apoiar na remodelação da esplanada, para ficar mais atrativa”.

Na Avenida dos Pescadores, que dá acesso à marginal, estão por recuperar ainda bancas de venda de tremoços ou mariscos. Já na marginal, um hostel ainda precisa de muitas obras antes de receber hóspedes. A oficina de artes “Cultura Avieira”, sem telhas e sem vidros e na marginal que o vento insiste em encher de areia, veem-se candeeiros tombados, além de alguns restaurantes onde as obras de recuperação nem sequer se iniciaram.

No bar “Sunset”, onde os pulares se concentravam no dia seguinte à tempestade, para tentar encontrar rede de telemóvel, ainda nem as fitas da proteção civil foram retiradas. No “Âncora”, dezenas de traves de madeira estão empilhadas junto à parede de madeira e à antiga esplanada, completamente destruída.

Da loja de recordações, onde ainda se anda a limpar areia das prateleiras, à sapataria ‘Paulita’, onde “toda a coleção ficou destruída”, ninguém quer lembrar “essa noite terrível” de 28 de janeiro.

Por entre o encolher de ombros de quem acha que “nem vale a pena falar nisso”, Alberto Gomes, lá vai contando que deve ao vizinho da pizzaria “ter dormido dentro da carrinha, com os vidros partidos” a guardar-lhe “as montras da sapataria, todas partidas”, para evitar que lhe levassem a mercadoria que acabou destruída. Também a este comerciante valeram “os fornecedores, que forneceram a nova coleção” que permitiu reabrir a loja.

Muito lentamente, vão-se somando os negócios que reabrem, na expectativa de que o verão permita recuperar alguma coisa do que se perdeu.

Na marisqueira César, um cartaz lembra a resistência das gentes da Praia da Vieira: “ardemos, abanámos, mas não caímos”.

No Flor do Liz, garante Bruno, há de ser colocada “uma fotografia do antes e depois, como um sinal de resiliência”.

Mas, no que todos concordam, é que três meses depois da tempestade, a bonança ainda está longe de chegar à Praia da Vieira.

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