Lemos frequentemente na imprensa nacional e em documentos oficiais europeus teses que defendem, como caminho para salvar o clima, que o setor agroalimentar deve produzir menos carne e ser alvo de mais taxas sobre as emissões. Esta narrativa, que tem ganho uma tração perigosa nos gabinetes de Bruxelas, peca por uma profunda falta de visão estratégica e por assentar numa contabilidade ambiental manifestamente hipócrita e enviesada.
Importa, por isso, repor a verdade e fazer as perguntas que os teóricos do clima sistematicamente evitam.
O argumento central para taxar a agricultura foca-se nas emissões, apontando o dedo ao metano dos ruminantes. Mas a agricultura não é uma fábrica de cimento, e uma vaca num prado não é um tubo de escape. A agricultura, e muito especificamente o sistema agropecuário extensivo que praticamos no sul do país — alicerçado nas nossas pastagens de sequeiro e no ecossistema único do Montado —, é o único setor da economia com a capacidade real, provada e contínua de retirar carbono da atmosfera.
Através do pastoreio, estimulamos o crescimento das raízes e a regeneração do coberto vegetal, transformando os nossos solos em autênticos sumidouros de carbono. É aqui que reside a maior hipocrisia do atual sistema europeu: a recusa em pagar, de forma séria e justa, o sequestro de carbono a quem trabalha a terra. Se existe um mercado onde a indústria altamente poluente transaciona créditos de carbono a peso de ouro para lavar a sua imagem, por que motivo quem efetivamente limpa a atmosfera não é devidamente remunerado?
Não estamos a pedir favores, esmolas ou subsídios com nomes pomposos; exigimos o pagamento justo por um serviço ambiental inestimável. O sequestro de carbono tem de passar a ser contabilizado e pago aos agricultores como um verdadeiro produto da sua exploração. Os produtores têm de ser bem pagos por cada tonelada de CO2 que as suas pastagens e árvores retiram do ar. Se a Europa quer usar as regras de mercado para nos taxar pelas emissões, tem de usar essas mesmas regras para nos pagar pelo carbono que retemos. A contabilidade atual é inaceitável: cobram-nos a fatura da emissão, mas confiscam-nos o valor da solução.
O segundo erro crasso desta visão punitiva é esquecer que a agricultura não é um setor transacionável qualquer; é o pilar central da nossa Soberania e da Segurança Nacional. A pandemia e a guerra na Ucrânia já nos deveriam ter ensinado que um país que não consegue alimentar o seu povo fica à mercê da chantagem de terceiros.
Como se não bastassem os choques recentes, assistimos agora à perigosa escalada do conflito no Médio Oriente, envolvendo Israel, o Irão e os Estados Unidos. Uma guerra destas proporções numa zona nevrálgica, com o estrangulamento das rotas comerciais marítimas, ameaça as cadeias logísticas globais e dispara os custos da energia. Num cenário de guerra onde os navios comerciais podem deixar de circular, defender a redução da nossa capacidade produtiva é um ato de irresponsabilidade suicida. Se não tivermos uma agricultura nacional pujante, o que vamos comer quando o transporte internacional colapsar?
A ilusão de que taxar a produção europeia salva o planeta cai por terra quando olhamos para as prateleiras. Reduzir a produção de carne na Europa não vai fazer com que as pessoas deixem de consumir. O que vai acontecer é a destruição da nossa produção local para darmos lugar à importação massiva de carne de países terceiros, produzida sem as nossas regras, muitas vezes à custa de desflorestação real e com uma pegada carbónica brutal associada ao transporte transatlântico.
É um erro trágico colocar toda a agropecuária no mesmo saco. No nosso território, os animais andam no campo, gerem o coberto vegetal, controlam os matos e são a nossa principal e mais barata linha de defesa contra os grandes incêndios rurais — esses sim, verdadeiras catástrofes ecológicas e de emissões descontroladas.
Colocar o setor agroalimentar “à prova da crise climática” não se faz com impostos castigadores, ignorando a geopolítica de pólvora que nos rodeia. Faz-se reconhecendo o agricultor como parte essencial da solução. Se a Europa quer ser séria na transição climática, tem de começar a pagar bem pelo sequestro de carbono a quem verdadeiramente cuida do solo e proteger, a todo o custo, a sua Soberania Alimentar. Sem agricultores não há comida. E sem comida, não há soberania nem taxa verde que nos salve.
João Revez
Agricultor e Presidente da Aproserpa
A Grande Ilusão: Porque têm as nossas Confederações medo da rua?
