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Do pão com mel às 'supersapatilhas': os segredos que empurraram Sebastian Sawe para o recorde mundial em Londres


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Sebastian Sawe fez história ao tornar-se no primeiro homem a terminar uma maratona abaixo da barreira das duas horas. Os queixos ‘caíram’ e vários especialistas dizem que Sawe bateu os limites conhecidos no atletismo. Como? De entre muita preparação, foram os mais de 240 quilómetros semanais, o pequeno-almoço à base de pão e mel, as sapatilhas mais leves de sempre e a coragem e esforço à mistura, que empurraram Sawe para a meta com um tempo impressionante de 1:59:30 hora.

Ian Walton

Cruzar a meta da Maratona de Londres, no passado domingo, e bater o recorde mundial não foi questão de sorte. Há muito que o atleta queniano mira no objetivo e prepara-se para atingi-lo.

O treinador de Sawe, Claudio Berardelli, revelou, ao The Guardian, alguns dos ‘segredos’ da conquista de Sawe, que, segundo o preparador, estava em melhor condição física do que na Maratona de Berlim, em setembro, quando o atleta já ansiava por quebrar o recorde mundial, mas onde o calor intenso trocou-lhe as voltas.

Na ‘manga’, destacam-se os treinos intensos todas as semanas, com os quais percorria 200 quilómetros e, às vezes, até mais.

“Nas últimas seis semanas, ele tem feito uma média de 200 quilómetros ou mais por semana, tendo atingido um pico de 241 quilómetros, afirmou Berardelli.

“Eu sabia que ele estava em excelente forma para Berlim, mas não conseguiu expressar-se devido às condições. Mas quando comecei a vê-lo a correr da mesma forma que corria antes de Londres, pensei: “Ei, pode ser que aconteça algo especial.””, contou ainda o treinador de Sawe.

Asas nos pés? Quase, as ‘supersapatilhas’

Para além dos treinos, fazer 100 metros em menos de 17 segundos e depois manter esse ritmo durante mais 42 quilómetros foi possível também pelo que levava nos pés, as Adidas Pro Evo 3, não só as mais rápidas, como as primeiras sapatilhas com menos de 100 gramas.

Sebastian Sawe a segurar as ‘supersapatilhas’ ao celebrar a vitória na maratona de Londres, a 26 de abril de 2026

Ian Walton / AP

Em declarações à Lusa, o antigo atleta António Pinto, recordista nacional dos 42,195 quilómetros e venceu três vezes a Maratona de Londres, em 1992, 1997 e 2000, afirmou que a marca abaixo das duas horas foi possível graças às supersapatilhas, com placa de carbono, e à fortíssima elite em Londres.

O antigo atleta diz ainda que Sawe veria uma marca melhor se fosse noutro local.

“Esta marca foi possível em Londres, com aquela elite, mas estou convencido que, estes atletas que fizeram abaixo das duas horas, numa das maratonas mais rápidas, como Chicago, Roterdão, Berlim ou Valência, ainda faziam menos um minuto ou dois. A diferença é que Londres tem os atletas que quer e que as outras não têm”, disse António Pinto.

O recordista nacional detalhou o efeito acelerador das chamadas supersapatilhas, com placa de carbono, que “quanto mais rápido se correr, mais impulsão dá, ou seja, se já têm um bom ritmo, ainda vão ter melhores resultados”, assumindo a certeza de que as suas marcas vão ser batidas.

Pão e mel antes, géis de hidratos durante

A par dos ténis de corrida, de acordo com o treinador de Sebastian Sawe, quebrar o recorde em Londres foi ainda possível graças aos géis de hidratos de carbono consumidos ao longo da prova, que ajudam os atletas a sentirem-se com mais energia.

“Não há dúvida de que estamos numa nova era da maratona, graças ao calçado e à alimentação adequada”, salientou Claudio Berardelli

Antes da corrida no domingo, o pequeno-almoço foi pensado meticulosamente para impulsionar o desempenho do atleta queniano e incluiu pão e mel, alimentos considerados bons pré-treinos tendo em conta que são de fácil digestão e fornecem energia imediata.

Sebastian Sawe morde a medalha após vencer a Maratona de Berlim com um tempo de 2:02:16 hora, em Berlim, Alemanha, a 21 de setembro de 2025

Markus Schreiber / AP

Ao terminar a maratona, Sawe reconheceu que o que tinha acontecido naquele momento seria inesquecível. Antes de domingo, no currículo tinha como melhor marca 02:02.05 hora.

“Tive coragem para continuar a dar o meu melhor, mesmo com um ritmo tão acelerado”, disse o atleta ao The Guardian. “Não me senti incomodado porque estava preparado para isso. O público ajudou-me imenso, pois estava a torcer, a gritar o meu nome e a transmitir-me força. O recorde mundial de hoje também se deve a eles.”

A juntar a tudo isto, a disciplina e o espírito “excecional” foram a cola para estas peças todas, conta ainda o treinador do atleta queniano. Daqui para a frente, só se espera melhor e mais rápido.

“O Sebastian ainda não atingiu o seu potencial máximo. Foi apenas a sua quarta maratona; se pensarmos nas adaptações a longo prazo, que são um processo que requer tempo, acredito que o Sabastian ainda não chegou a esse ponto”, admitiu o treinador, que também crê que Sawe poderia ter sido mais rápido em maratonas como a de Berlim ou Chicago.

De referir que atrás de Sawe, em Londres, o registo de duas horas foi igualmente batido pelo queniano Yomif Kejelcha (01:59.41), segundo classificado. Em terceiro lugar, ficou o ugandês Jacob Kiplimo (02:00.28).



SIC Noticias

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