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Investigadores do Instituto Superior Técnico e da Altice Labs estão a desenvolver um pequeno satélite equipado com um terminal 5G que, em vez de depender de estações terrestres tradicionais, vai comunicar diretamente com antenas da rede celular. O lançamento está previsto para 2027.
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Não se trata de lançar milhares de satélites para o espaço. O projeto “5G Nanosatellite“ segue um caminho diferente: colocar em órbita um único e pequeno satélite – um CubeSat com cerca de 30 centímetros – capaz de comunicar com a Terra através da mesma tecnologia que usamos nos telemóveis.
O conceito é simples de explicar, mas difícil de concretizar. Atualmente, um satélite em órbita baixa só consegue descarregar dados durante cerca de 40 minutos por dia, porque depende de estações terrestres dedicadas e com janelas de contacto limitadas. Com a rede 5G, esse tempo pode passar para várias horas diárias.
“O conceito que estamos a tentar demonstrar é que conseguimos substituir as estações terrestres tradicionais que se usam para descarregar dados de satélite pela infraestrutura existente da rede celular de 5G”, explica João Paulo Monteiro, investigador do IST NanoSat Lab.
O projeto junta a Altice Labs, o Técnico, a Agência Espacial Europeia (ESA), a Universidade do Luxemburgo e conta com o suporte da MEO.
A Altice Labs desenvolve o terminal de comunicações – totalmente baseado em software -, enquanto o IST constrói a plataforma do satélite. Três antenas em solo português – em Aveiro, no Tagus Park e nos Açores – vão acompanhar a passagem do satélite a cerca de 500 quilómetros de altitude.
O princípio é idêntico ao de um telemóvel numa autoestrada: à medida que o satélite se desloca, vai “saltando” de antena em antena. “Bastam três antenas para cobrir todo o território nacional”, sublinha Nuno Monteiro, da Altice Labs.
“Democratizar o acesso a comunicações no espaço”
“A vantagem é simples: é democratizar o acesso a comunicações no espaço”, acrescenta o engenheiro. Como o terminal é definido por software, pode ser atualizado remotamente – inclusive reconfigurado de 5G para 6G já em órbita, sem necessidade de lançar um novo satélite.
O IST não parte do zero. Em 2024, lançou o IST-SAT-1, o primeiro satélite universitário inteiramente desenvolvido em Portugal, que continua em órbita e a funcionar. A experiência acumulada – com cerca de 100 estudantes envolvidos ao longo dos anos – serve agora de base para este projeto mais ambicioso.
As aplicações vão da observação da Terra em quase tempo real até à defesa, com comunicações táticas seguras e sem dependência de componentes de terceiros.
“Podemos garantir a completa segurança dos dados para comunicações táticas ou mesmo para a obtenção de imagens para atividades militares”, assegura Nuno Monteiro.
A ANACOM concedeu uma licença especial para a experiência, já que a regulamentação ainda não prevê este tipo de comunicação. É precisamente essa fronteira regulatória que interessa também à ESA, que financia o projeto.
O lançamento está previsto para 2027. Se tudo correr bem, Portugal terá provado que é possível ligar um satélite à rede 5G — e abrir caminho a dois produtos comerciais europeus: o terminal espacial e a torre terrestre adaptada para redes não-terrestres. Reportagem aqui no Futuro Hoje.
